Você se lembra de que, naqueles tempos de que estamos falando, quando os homens adoravam a Deus, construíam um altar de terra ou de pedra e colocavam sobre ele uma oferta, como presente a Deus. A oferta era geralmente uma ovelha, ou uma cabra, ou um novilho, algum animal que servia de alimento. Uma oferta assim chamava-se "sacrifício".
Mas os povos que adoravam ídolos faziam muitas vezes o que nos parece muito estranho e muito terrível. Pensavam que agradariam a seus deuses se oferecessem em sacrifício as coisas vivas mais preciosas que possuíam; e tomavam os próprios filhinhos e os matavam sobre os altares, como ofertas aos deuses de madeira e pedra, que não eram deuses de verdade, mas apenas imagens.
Deus quis mostrar a Abraão, e a todos os seus descendentes, os que viessem depois dele, que não se agradava de ofertas como essas, de pessoas vivas mortas sobre os altares. E Deus escolheu um modo de ensinar Abraão, para que ele e seus filhos depois dele jamais o esquecessem. Ao mesmo tempo, quis ver quão fiel e obediente Abraão seria às suas ordens; quão plenamente Abraão confiaria em Deus, ou, como diríamos, quão grande era a fé de Abraão em Deus.
Assim, Deus deu a Abraão uma ordem que não pretendia ver cumprida, embora isso não tenha dito a Abraão. Ele disse:
"Toma agora teu filho, teu único filho Isaque, a quem tanto amas, e vai à terra de Moriá; e ali, sobre um monte que eu te mostrarei, oferece-o em holocausto a mim."
Embora essa ordem enchesse de dor o coração de Abraão, ele não ficaria tão surpreso ao recebê-la quanto ficaria um pai em nossos dias; pois tais ofertas eram muito comuns entre todos os povos da terra onde Abraão vivia. Abraão nem por um momento duvidou ou desobedeceu à palavra de Deus. Sabia que Isaque era o filho que Deus havia prometido, e que Deus prometera também que Isaque teria filhos, e que os que dele procedessem seriam uma grande nação. Não via como Deus poderia cumprir a sua promessa a respeito de Isaque, se Isaque fosse morto em sacrifício — a não ser que Deus o ressuscitasse dos mortos depois. Mas Abraão dispôs-se imediatamente a obedecer à ordem de Deus. Levou consigo dois moços e um jumento carregado de lenha para o fogo; e seguiu rumo ao monte, no norte, com Isaque, seu filho, caminhando ao seu lado. Por dois dias caminharam, dormindo à noite debaixo das árvores, em campo aberto. E no terceiro dia Abraão viu o monte ao longe. E quando se aproximavam do monte, Abraão disse aos moços:
"Ficai aqui com o jumento, enquanto eu subo àquele monte com Isaque para adorarmos; e, quando tivermos adorado, voltaremos a vós."
Pois Abraão cria que, de algum modo, Deus faria Isaque voltar à vida. Tirou a lenha do jumento e a pôs sobre Isaque, e os dois subiram juntos o monte. Enquanto caminhavam, Isaque disse: "Pai, aqui está a lenha, mas onde está o cordeiro para a oferta?" E Abraão respondeu: "Meu filho, Deus proverá para si o cordeiro."
E chegaram ao lugar, no alto do monte. Ali Abraão construiu um altar de pedras e terra amontoadas, e sobre ele colocou a lenha. Depois amarrou as mãos e os pés de Isaque, e o deitou sobre a lenha, em cima do altar. E Abraão levantou a mão, segurando a faca para matar seu filho. Um momento mais, e Isaque seria morto pela mão do próprio pai. Mas, exatamente naquele momento, o anjo do Senhor chamou do céu a Abraão e disse: "Abraão! Abraão!" E Abraão respondeu: "Aqui estou, Senhor." Então o anjo do Senhor disse:
"Não estendas a mão sobre teu filho. Não lhe faças mal algum. Agora sei que amas a Deus mais do que amas o teu único filho, e que és obediente a Deus, pois estás pronto a entregar teu filho, teu único filho, a Deus."
Que alívio e que alegria essas palavras vindas do céu trouxeram ao coração de Abraão! Como ele ficou feliz ao saber que não era a vontade de Deus que matasse seu filho! Então Abraão olhou ao redor, e ali, no meio do matagal, havia um carneiro preso pelos chifres. E Abraão tomou o carneiro e o ofereceu em holocausto, no lugar do seu filho. Assim se cumpriram as palavras de Abraão, quando disse que Deus proveria para si um cordeiro. Ao lugar onde esse altar foi construído Abraão deu o nome de Jeová-Jiré, palavras que significam, na língua que Abraão falava, "O Senhor proverá".
Essa oferta, que parece tão estranha, fez muito bem. Mostrou a Abraão, e a Isaque também, que Isaque pertencia a Deus, pois a Deus havia sido oferecido; e, em Isaque, todos os que dele procedessem, os seus descendentes, haviam sido entregues a Deus. Mostrou também a Abraão, e a todo o povo depois dele, que Deus não queria que crianças ou homens fossem mortos como ofertas de adoração; e, enquanto todos os povos ao redor ofereciam tais sacrifícios, os israelitas, que vieram de Abraão e de Isaque, nunca os ofereceram, mas ofereciam bois, ovelhas e cabras em seu lugar. E essa oferta apontava para um tempo futuro em que, assim como Abraão deu seu filho em oferta, Deus daria seu Filho Jesus Cristo para morrer pelo mundo. Tudo isso foi ensinado naquele ato de adoração no Monte Moriá.
Alguns pensam que, no mesmo lugar onde essa oferta foi feita, ergueu-se, muitos anos depois, o altar do templo, no Monte Moriá. Se isso for verdade, a rocha ainda está lá, e sobre ela há um edifício chamado "O Domo da Rocha". Muitas pessoas visitam hoje essa rocha debaixo do domo, e pensam no que ali aconteceu há tanto tempo. Nessa época, Abraão vivia num lugar chamado Berseba, na orla do deserto, ao sul da terra de Canaã. De Berseba partiu em sua viagem ao Monte Moriá, e a Berseba voltou depois da oferta no monte. Berseba foi o lar de Abraão durante a maior parte dos seus últimos anos. Depois de algum tempo, Sara, a mulher de Abraão e mãe de Isaque, morreu, com cento e vinte anos de idade. E Abraão comprou do povo de Hebrom uma caverna, chamada caverna de Macpela; e ali sepultou Sara, sua mulher. Esse lugar ainda é conhecido como a cidade de Hebrom, mas as pessoas que lá vivem não permitem que estranhos o visitem.