Passado algum tempo, houve outra grande guerra entre a Síria e Israel; e Ben-Hadade, rei da Síria, conduziu um poderoso exército à terra de Israel e pôs cerco à cidade de Samaria. Tão duro e tão longo foi o cerco que o povo de Samaria não encontrava nada para comer; muitos morreram de fome, e alguns chegaram a matar os próprios filhos para comê-los.
Mas durante todo o cerco Eliseu animava o rei de Israel a não entregar a cidade. Quando parecia já não haver esperança, Eliseu disse ao rei: "Ouve a palavra do Senhor: 'Amanhã, a esta hora, à porta de Samaria, uma medida de farinha será vendida por sessenta centavos, e duas medidas de cevada por sessenta centavos.'"
Um dos nobres, em cujo braço o rei se apoiava, não acreditou na palavra de Eliseu e disse com desdém: "Ainda que o Senhor abrisse janelas no céu e fizesse chover trigo e cevada, poderia acontecer tal coisa?" "Tu o verás com os teus próprios olhos", respondeu Eliseu, "mas não comerás daquele alimento."
Na manhã seguinte, ao romper do dia, quatro homens leprosos estavam juntos do lado de fora da porta de Samaria. Por serem leprosos, as leis de Israel não lhes permitiam entrar nas muralhas da cidade. (Já lemos sobre a lepra e os leprosos na história de Naamã, a décima terceira história desta parte.) Esses quatro homens disseram uns aos outros: "Que faremos? Se entrarmos na cidade, morreremos ali de fome; se ficarmos aqui, também morreremos. Vamos ao acampamento dos sírios; talvez nos deixem viver; e, no pior dos casos, nada mais podem fazer do que matar-nos."
Foram, pois, os quatro homens em direção ao acampamento sírio; mas, ao se aproximarem, surpreenderam-se de não encontrar ninguém de guarda. Entraram numa tenda e acharam-na vazia, como se tivesse sido abandonada de repente, pois havia ali comida, bebida, vestes, ouro e prata. Como não havia ninguém, comeram e beberam quanto quiseram; depois levaram objetos de valor e os esconderam. Olharam dentro de outra tenda, e de mais outra, e acharam-nas como a primeira, mas não se via homem algum. Andaram por todo o acampamento; e não havia ali um só soldado, e as tendas estavam exatamente como quando os homens viviam nelas.
Durante a noite, o Senhor fizera os sírios ouvirem um grande estrondo, como o rodar de carros, o tropel de cavalos e a marcha de soldados. E disseram uns aos outros, tomados de medo: "O rei de Israel mandou chamar os hititas, do norte, e os egípcios, do sul, para virem contra nós."
E tão grande e tão repentino foi o seu terror, que naquela mesma noite se levantaram e fugiram, deixando tudo no acampamento — deixando até os cavalos amarrados, e os jumentos, e todo o seu tesouro, e toda a sua comida, nas tendas.
Depois de algum tempo, os leprosos disseram uns aos outros: "Não fazemos bem em calar esta boa notícia à cidade. Se eles descobrirem, vão culpar-nos por não os termos avisado, e podemos perder a vida por causa disso."
Subiram, pois, à porta da cidade, chamaram os homens da guarda e contaram-lhes como haviam encontrado o acampamento dos sírios, com as tendas de pé e os cavalos amarrados, mas sem um homem sequer. Os guardas levaram a notícia ao palácio do rei. Mas o rei, ao ouvi-la, pensou que fosse uma artimanha dos sírios, que estariam escondidos para atrair os homens para fora da cidade e assim tomá-la.
O rei enviou dois homens com cavalos e carros, e eles descobriram que não somente o acampamento fora abandonado, mas que a estrada que descia as montanhas até o rio Jordão estava coberta de vestes, armas e tesouros que os sírios haviam jogado fora na sua fuga desesperada.
A notícia logo se espalhou pela cidade de Samaria; e em poucas horas toda a cidade estava à porta. E quando a comida foi trazida do acampamento, houve abundância para todo o povo. E cumpriu-se o que Eliseu dissera: uma medida de farinha e duas medidas de cevada foram vendidas por sessenta centavos à porta de Samaria, antes do meio-dia daquele dia.
O rei escolheu o nobre em cujo braço se apoiara na véspera para tomar conta da porta. Assim ele viu com os próprios olhos aquilo que o profeta predissera; mas não comeu daquilo, pois a multidão era tão grande que o povo o comprimiu, e ele foi pisoteado e morreu no tumulto.
Assim o rei e toda a cidade de Samaria souberam que Eliseu havia de fato falado a palavra do Senhor.
Vimos como os caminhos de Eliseu eram diferentes dos caminhos de Elias. Elias vivia sozinho no deserto, e nunca comparecia diante dos reis senão para lhes apontar as suas más obras e adverti-los do castigo. Eliseu, porém, vivia na cidade, às vezes até na cidade de Samaria, enviava muitas vezes mensagens úteis ao rei e mostrava-se seu amigo. Ambos eram necessários, Elias e Eliseu: um para destruir o mal na terra, e o outro para edificar o bem.