Jesus percorreu com os seus discípulos a terra da Pereia, a leste do Jordão, a única parte do país dos israelitas que ele ainda não havia visitado. O povo tinha ouvido falar de Jesus pelos setenta discípulos que ele enviara por aquela terra, como lemos na Vigésima Quinta História, e em toda parte grandes multidões vinham vê-lo e ouvi-lo. Certa vez, um homem gritou do meio da multidão e disse a Jesus:
"Mestre, fala ao meu irmão, e dize-lhe que me dê a minha parte do que nosso pai nos deixou!"
Jesus disse:
"Homem, quem me constituiu juiz sobre vós, para resolver as vossas disputas? Guardai-vos ambos, e todos vós, da cobiça, de buscar o que não vos pertence."
Então Jesus contou ao povo a parábola, ou história, do "Rico Insensato". Ele disse:
"Havia um lavrador rico cujos campos davam grandes colheitas, até que o rico disse consigo mesmo:
"'Que farei? Pois não tenho onde guardar os frutos dos meus campos. Farei isto: derrubarei os meus celeiros e construirei outros maiores; e ali guardarei todo o meu trigo e os meus bens. E direi à minha alma: "Alma, tens bens guardados que bastam para muitos anos; descansa, come, bebe e alegra-te."'
"Mas Deus disse ao rico: 'Insensato! Esta noite morrerás, e a tua alma te será tirada. E as coisas que ajuntaste, de quem serão?'"
E Jesus disse: "Assim é o homem que ajunta tesouros para si mesmo, e não é rico para com Deus."
Num dia de sábado, Jesus estava ensinando numa sinagoga. E entrou uma mulher que havia dezoito anos andava encurvada, sem poder endireitar-se. Quando Jesus a viu, chamou-a e lhe disse:
"Mulher, estás livre do teu mal."
Impôs-lhe as mãos; e ela se endireitou, e louvou a Deus pela sua misericórdia. Mas o chefe da sinagoga não gostou de ver Jesus curando no sábado. Falou ao povo e disse:
"Há seis dias em que os homens devem trabalhar; vinde nesses dias para ser curados, e não no dia de sábado."
Mas Jesus disse a ele e aos outros:
"Cada um de vós não desamarra, no sábado, o seu boi ou o seu jumento do estábulo, para levá-lo a beber água? E esta mulher, filha de Abraão, que estava presa havia dezoito anos, não devia ser solta das suas prisões no dia de sábado?"
E os inimigos de Jesus não puderam dizer nada; enquanto todo o povo se alegrava com as obras gloriosas que ele fazia.
Num certo lugar, Jesus foi convidado para um jantar. Ele disse àquele que o havia convidado:
"Quando deres um jantar ou uma ceia, não convides os teus amigos, nem os teus vizinhos ricos, pois eles te convidarão por sua vez. Mas, quando deres uma festa, convida os pobres, os desamparados, os coxos e os cegos; porque eles não podem retribuir-te o convite; mas Deus te dará a recompensa no seu devido tempo."
E grandes multidões iam com Jesus; e ele se voltou e lhes disse:
"Se alguém vem após mim, deve amar-me mais do que ama seu próprio pai, e sua mãe, e mulher e filhos, sim, e a sua própria vida também; do contrário, não pode ser meu discípulo.
"Pois qual de vós, querendo construir uma torre, não se assenta primeiro e calcula o custo, para ver se poderá terminá-la? Porque, se depois de lançar o alicerce a deixar inacabada, todos os que passarem hão de rir dele, dizendo: 'Este homem começou a construir e não pôde terminar.'
"Ou que rei, saindo à guerra contra outro rei, não se assenta primeiro para ver se com dez mil homens pode enfrentar aquele que vem contra ele com vinte mil? E, se vê que não pode enfrentá-lo, enquanto o outro ainda está longe, envia mensageiros e pede paz.
"Assim também, cada um de vós deve renunciar a tudo o que tem, se quiser ser meu discípulo."
Enquanto Jesus ensinava, muitos publicanos, os que recolhiam os impostos do povo, vinham ouvi-lo; e também muitos outros a quem os fariseus e os escribas chamavam "pecadores". Os inimigos de Jesus diziam:
"Este homem gosta que os pecadores venham vê-lo, e come com eles."
Então Jesus contou uma parábola chamada "A Ovelha Perdida", para mostrar por que estava disposto a conversar com os pecadores. Ele disse:
"Qual dentre vós, tendo cem ovelhas, se uma delas se perder, não deixa as noventa e nove no campo e vai atrás da que se perdeu, até encontrá-la? E, quando a encontra, põe-na sobre os ombros, feliz por rever a sua ovelha perdida. E, chegando a casa, reúne os amigos e vizinhos e lhes diz:
"'Alegrai-vos comigo, porque encontrei a minha ovelha que estava perdida!'
"Assim também", disse Jesus, "há alegria no céu por um só pecador que se volta para Deus, mais do que por noventa e nove justos que não precisam converter-se dos seus pecados."
Jesus contou ao povo também a parábola da "Moeda Perdida". Ele disse:
"Se uma mulher tem dez moedas de prata e perde uma, não acende ela uma lâmpada e varre a casa com cuidado, até encontrá-la? E, quando a encontra, reúne as amigas e vizinhas, dizendo:
"'Alegrai-vos comigo, porque encontrei a moeda de prata que eu havia perdido.'
"Assim também há alegria entre os anjos de Deus por um só pecador que se converte dos seus pecados."
Depois Jesus contou outra parábola, aquela chamada "A Parábola do Filho Pródigo". Pródigo é aquele que gasta tudo o que tem, como fez o jovem desta parábola. Jesus disse: "Um homem tinha dois filhos. O mais moço disse ao pai:
"'Pai, dá-me a parte que me cabe do que possuis.'
"Então o pai repartiu tudo o que tinha entre os dois filhos; e, não muitos dias depois, o filho mais moço tomou a sua parte e partiu para uma terra distante; e ali desperdiçou tudo, vivendo de modo desregrado e mau. E, quando tinha gastado tudo, sobreveio àquela terra uma grande fome; e ele começou a passar necessidade.
"E foi trabalhar para um dos homens daquela terra; e este o mandou para os campos, apascentar porcos. E o jovem tinha tanta fome que de bom grado se fartaria das bolotas que os porcos comiam; e ninguém lhe dava nada. Por fim, o jovem começou a lembrar-se da casa de seu pai; e disse consigo mesmo:
"'Quantos empregados de meu pai têm pão com fartura e de sobra, enquanto eu aqui morro de fome! Eu me levantarei, irei ter com meu pai e lhe direi: "Pai, pequei contra o céu e diante de ti. Já não sou digno de ser chamado teu filho; deixa-me ser um dos teus empregados."'
"E levantou-se para voltar à casa de seu pai. Mas, quando ainda estava longe, seu pai o viu, e correu, e lançou-se ao seu pescoço, e o beijou. E o filho lhe disse:
"'Pai, pequei contra o céu e diante de ti. Já não sou digno de ser chamado teu filho—'
"Mas, antes que pudesse dizer mais alguma coisa, o pai chamou os servos e disse:
"'Trazei depressa a melhor túnica e vesti-a nele; ponde-lhe um anel na mão e sandálias nos pés; e trazei o bezerro cevado e matai-o, e comamos e alegremo-nos; porque este meu filho estava morto e reviveu; estava perdido e foi achado.' Ora, o filho mais velho estava no campo; e, quando vinha chegando perto de casa, ouviu música e dança. Chamou um dos servos e perguntou o que era aquilo. E o servo lhe disse:
"'Teu irmão voltou; e teu pai matou o bezerro cevado e está dando uma festa, porque ele chegou em casa são e salvo.'
"Mas o irmão mais velho ficou irado e não quis entrar; e seu pai saiu e insistiu com ele. Ele, porém, respondeu ao pai:
"'Há tantos anos eu te sirvo, e nunca desobedeci às tuas ordens; e, no entanto, nunca me deste nem sequer um cabrito para eu me alegrar com os meus amigos. Mas, quando veio este teu filho, que desperdiçou os teus bens com gente má, mataste para ele o bezerro cevado!'
"E o pai lhe disse:
"'Meu filho, tu estás sempre comigo, e tudo o que tenho é teu. Mas era justo que nos alegrássemos e fizéssemos festa; porque este teu irmão estava morto e reviveu; estava perdido e foi achado.'"
Com essas parábolas Jesus mostrou que não veio buscar os que se julgavam tão bons que não precisavam dele, mas os pecadores e os necessitados.