E assim Pôncio Pilatos, o governador romano, deu ordem para que Jesus morresse na cruz. Os soldados romanos, então, tomaram Jesus e o açoitaram de novo com grande crueldade; e depois o levaram para fora da cidade, ao lugar da morte. Era um lugar chamado "Gólgota" na língua dos judeus e "Calvário" na dos romanos; ambas as palavras significam "Lugar da Caveira".
Com os soldados saiu da cidade uma grande multidão, alguns deles inimigos de Jesus, contentes de vê-lo sofrer; outros, amigos de Jesus, e as mulheres que o haviam servido, que agora choravam ao vê-lo todo coberto do próprio sangue, caminhando para a morte. Mas Jesus voltou-se para elas e disse:
"Filhas de Jerusalém, não choreis por mim; chorai por vós mesmas e por vossos filhos. Porque virão dias em que se dirá: felizes as que não têm pequeninos para serem mortos; dias em que desejarão que os montes caiam sobre elas e que as colinas as cubram, escondendo-as de seus inimigos!"
Tinham tentado fazer com que Jesus carregasse a própria cruz, mas logo perceberam que ele estava fraco demais por causa dos sofrimentos, e não podia levá-la. Agarraram então um homem que vinha do campo para a cidade, um homem chamado Simão; e o obrigaram a carregar a cruz até o seu lugar, no Calvário.
Era costume entre os judeus dar aos homens que iam morrer na cruz um remédio para entorpecer os sentidos, para que não sofressem tanto. Ofereceram-no a Jesus, mas ele, tendo-o provado e percebido o que era, não quis tomá-lo. Sabia que ia morrer, mas queria conservar a mente clara e compreender tudo o que se fazia e se dizia, ainda que os seus sofrimentos fossem maiores.
No lugar chamado Calvário deitaram a cruz no chão, estenderam Jesus sobre ela e cravaram pregos em suas mãos e em seus pés, para prendê-lo à cruz; depois a levantaram, com Jesus pregado nela. Enquanto os soldados faziam essa obra terrível, Jesus orava a Deus por eles, dizendo: "Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem."
Os soldados tomaram também as roupas que Jesus havia usado, dando uma peça a cada um. Mas quando chegaram à túnica, viram que era tecida sem costura alguma; por isso disseram: "Não a rasguemos, mas lancemos sortes sobre ela, para ver de quem será." E assim, ao pé da cruz, os soldados lançaram sortes sobre a veste de Cristo. Dois homens que tinham sido ladrões e haviam sido condenados a morrer na cruz foram levados para morrer ao mesmo tempo que Jesus. Um foi posto numa cruz à sua direita, e o outro à sua esquerda; e, para que Jesus parecesse o pior de todos, a sua cruz ficou no meio. Sobre a cabeça de Jesus, na cruz, colocaram, por ordem de Pilatos, um letreiro em que estava escrito:
"ESTE É JESUS DE NAZARÉ, O REI DOS JUDEUS."
Isso estava escrito em três línguas: em hebraico, que era a língua dos judeus; em latim, a língua dos romanos; e em grego. Muitos do povo leram esse letreiro; mas os principais sacerdotes não ficaram satisfeitos com ele. Insistiram com Pilatos para que o mudasse de "O Rei dos Judeus" para "Ele disse: 'Eu sou o Rei dos Judeus'".
Mas Pilatos não quis mudá-lo. Disse: "O que escrevi, escrevi."
E as pessoas que passavam pela estrada, ao olhar para Jesus na cruz, zombavam dele. Alguns lhe gritavam: "Tu, que destruirias o Templo e o reconstruirias em três dias, salva-te a ti mesmo. Se és o Filho de Deus, desce da cruz!"
E os sacerdotes e os escribas diziam: "Salvou os outros, e a si mesmo não pode salvar. Desça da cruz, e creremos nele!"
E um dos ladrões, que estava na sua própria cruz ao lado da de Jesus, juntou-se ao clamor e disse: "Se tu és o Cristo, salva-te a ti mesmo e salva-nos a nós!"
Mas o outro ladrão lhe disse: "Nem sequer temes a Deus, para falares assim, tu que sofres a mesma pena que este homem? E nós merecemos morrer; mas este homem nenhum mal fez."
Então esse homem disse a Jesus: "Senhor, lembra-te de mim quando entrares no teu reino."
E Jesus lhe respondeu, enquanto ambos pendiam de suas cruzes:
"Hoje estarás comigo no paraíso."
Diante da cruz de Jesus estava de pé sua mãe, cheia de dor pelo seu filho, e junto dela um dos discípulos, João, o discípulo a quem ele mais amava. Além de sua mãe, estavam ali outras mulheres: a irmã de sua mãe, Maria, mulher de Cléopas, e uma mulher chamada Maria Madalena, da qual, um ano antes, Jesus havia expulsado um espírito maligno. Jesus quis entregar sua mãe, agora que a deixava, aos cuidados de João, e disse a ela, olhando dela para João: "Mulher, eis aí o teu filho."
E depois disse a João: "Filho, eis aí a tua mãe."
E naquele mesmo dia João levou a mãe de Jesus para a sua própria casa, e cuidou dela como de sua própria mãe.
Por volta do meio-dia, uma escuridão repentina cobriu a terra, e durou três horas. E no meio da tarde, quando Jesus já estava havia seis horas na cruz, em terrível agonia, ele clamou em alta voz palavras que significavam:
"Meu Deus, meu Deus, por que me desamparaste?" — palavras que são o começo do Salmo vinte e dois, um salmo que muito tempo antes já havia falado de muitos dos sofrimentos de Cristo.
Depois disso falou de novo, dizendo: "Tenho sede!"
E alguém molhou uma esponja num vaso de vinagre, colocou-a na ponta de uma cana e deu-lhe de beber. Então Jesus pronunciou suas últimas palavras na cruz:
"Está consumado! Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito!"
E então Jesus morreu. E naquele momento o véu do Templo, entre o Lugar Santo e o Santo dos Santos, foi rasgado por mãos invisíveis, de alto a baixo. E o oficial romano que comandava os soldados ao redor da cruz viu o que havia acontecido e como Jesus morrera, e disse: "Verdadeiramente este era um homem justo; era o Filho de Deus."
Depois que Jesus morreu, um dos soldados, para certificar-se de que ele já não vivia, cravou-lhe a lança no lado do corpo morto; e da ferida jorraram água e sangue.
Havia, mesmo entre os chefes dos judeus, uns poucos que eram amigos de Jesus, embora não ousassem segui-lo abertamente. Um deles era Nicodemos, o príncipe dos judeus que fora ver Jesus de noite, como lemos na História Sete. Outro era um homem rico, natural da cidade de Arimateia, chamado José. José de Arimateia foi corajosamente a Pilatos e pediu que o corpo de Jesus lhe fosse entregue. Pilatos admirou-se de que ele tivesse morrido tão depressa, pois muitas vezes os homens viviam na cruz dois ou três dias. Mas quando soube que Jesus estava realmente morto, entregou o corpo a José.
Então José e seus amigos desceram o corpo de Jesus da cruz e o envolveram em linho fino. E Nicodemos trouxe especiarias preciosas, mirra e aloés, que envolveram junto com o corpo. Depois colocaram o corpo no túmulo novo do próprio José, que era uma gruta cavada na rocha, num jardim perto do lugar da cruz. E diante da entrada da gruta rolaram uma grande pedra.
E Maria Madalena e a outra Maria, e algumas outras mulheres, viram o túmulo e observaram enquanto ali depositavam o corpo de Jesus. Na manhã seguinte, alguns dos chefes dos judeus foram a Pilatos e disseram:
"Senhor, lembramo-nos de que aquele homem, Jesus de Nazaré, que enganava o povo, disse, quando ainda vivia: 'Depois de três dias ressuscitarei.' Dá ordens para que o túmulo seja vigiado e guardado com segurança por três dias; do contrário, os seus discípulos poderão roubar o corpo e depois dizer: 'Ressuscitou dos mortos'; e assim, mesmo depois de morto, ele poderá fazer mais mal do que fez enquanto vivia."
Pilatos lhes disse: "Tendes uma guarda; ide e guardai-o com toda a segurança que puderdes."
Então puseram um selo sobre a pedra, para que ninguém a rompesse; e colocaram uma guarda de soldados à porta.
E no túmulo o corpo de Jesus repousou desde a tarde de sexta-feira, o dia em que morreu na cruz, até a aurora do domingo, o primeiro dia da semana.