✦ ASTRONEXOVOZES DA BÍBLIA
A02

Abraão e os ídolos

Jubileus 11–12
O Jovem Abrão e a Casa dos Ídolos
Antigo Testamento★ narrativa
Apócrifo — fora do cânon bíblico. Esta história vem de Livro dos Jubileus, escrito antigo que as igrejas não incluem entre os 73 livros da Bíblia. É oferecida como documento histórico e literário, não como Escritura.

A Bíblia nos conta que Abraão morou primeiro em Ur dos Caldeus, e que Deus o chamou para sair daquela terra. Mas a Bíblia diz muito pouco sobre a meninice de Abraão. Um livro antigo, chamado Livro dos Jubileus, e as velhas tradições dos judeus contam esta história dos dias em que Abraão ainda era menino, e se chamava Abrão.

Naqueles dias o povo de Ur tinha esquecido o Deus que fez o céu e a terra. Faziam para si imagens de madeira e de pedra, de prata e de ouro, e as chamavam deuses, e se curvavam diante delas. Em toda casa havia ídolos, e os homens oravam a coisas que as suas próprias mãos tinham feito, coisas que não podiam ver, nem ouvir, nem andar. E Tera, o pai de Abrão, vivia no meio desse povo, e servia aos ídolos como todos os outros.

Mas o menino Abrão, ainda pequeno, começou a perceber como o povo daquela terra andava errado. Olhava para as imagens e pensava: "Estas não podem ajudar a ninguém, porque são apenas madeira e pedra". E erguia os olhos para o sol, para a lua e para as estrelas, e para a chuva que fazia crescer as sementes, e pensava: "Alguém fez tudo isto. Deve haver um Deus que fez os céus e a terra".

Então Abrão se afastou dos ídolos, e começou a orar ao Criador de todas as coisas, dizendo: "Ó meu Deus, Deus altíssimo, só tu és Deus para mim. Tu fizeste todas as coisas, e todas as coisas são obra das tuas mãos. Livra-me do poder dos espíritos maus que desencaminham o coração dos homens, e não me deixes ir atrás dos ídolos, mas guarda-me como teu servo para sempre".

Naqueles dias, quando o povo saía para semear os campos, bandos de corvos e de aves famintas desciam em nuvens sobre a terra, e comiam a semente dos sulcos antes que ela pudesse ser coberta, de modo que o povo ficava sem as suas colheitas. E no ano em que Abrão era um rapazinho de catorze anos, chegou o tempo da semeadura, e com ele vieram os corvos. Então Abrão correu para os campos contra eles, e antes que um só corvo pousasse no chão, gritou: "Voai daqui! Voltai para o lugar de onde viestes!" E os corvos deram meia-volta e foram embora. Setenta vezes naquele dia as nuvens de aves desceram sobre os campos, e setenta vezes Abrão as fez voltar, e nem um corvo ficou em todos os campos onde Abrão estava.

Então todos os lavradores daquela terra vieram a Abrão, e pediram que ele saísse com eles para as semeaduras; e naquele ano semearam em paz, e recolheram trigo em fartura, e comeram e ficaram satisfeitos. E Abrão ensinou aos artesãos que faziam as ferramentas de lavoura a prender no arado uma caixa para a semente, de modo que a semente descesse dela e caísse no sulco, e ficasse logo escondida na terra, fora do alcance das aves. Depois disso o povo não teve mais medo dos corvos.

Abrão cresceu, e o que mais o afligia era a adoração dos ídolos. Por fim veio a Tera, seu pai, e disse: "Pai, posso perguntar-te uma coisa?"

E Tera disse: "Pergunta, meu filho".

Então Abrão disse: "Que ajuda ou que proveito temos destes ídolos, diante dos quais te curvas? Não há espírito neles; são figuras mudas, um engano do coração. Não os adores. Adora antes o Deus do céu, que faz descer a chuva e o orvalho sobre a terra, e que fez todas as coisas pela sua palavra, e de cuja face vem toda a vida. Por que adorais coisas que os homens fizeram com as mãos, e que carregam nos ombros? Nenhuma ajuda recebeis delas; elas são uma grande vergonha para os que as fazem. Não as adores mais, meu pai".

E Tera respondeu-lhe em voz baixa: "Meu filho, eu também sei disso. Mas que hei de fazer com este povo, que me mandou servir diante destes ídolos? Se eu lhes disser a verdade, eles me matarão, porque o coração deles está apegado aos seus ídolos. Cala-te, meu filho, cala-te, para que não te matem".

Abrão falou disso também aos seus irmãos, mas eles se iraram com as suas palavras, e ele se calou. Porém não se calou no seu coração.

Passaram-se os anos, e Abrão casou-se com Sarai; e ainda assim, em toda casa de Ur, os ídolos continuavam de pé, e na casa da sua própria família havia uma casa de ídolos. E certa noite Abrão levantou-se em segredo, e pôs fogo na casa dos ídolos, e a queimou com tudo o que havia dentro, e ninguém soube quem o tinha feito.

De noite os homens da casa se levantaram, e queriam apagar o fogo e salvar os seus deuses. E Harã, irmão de Abrão, correu para o meio das chamas para tirar os ídolos; mas o fogo foi mais forte do que ele, e ele se queimou no incêndio, e morreu ali em Ur dos Caldeus, diante do rosto de Tera, seu pai. E o sepultaram em Ur. Assim se cumpriu o que Abrão dissera: os ídolos não podiam ajudar nem a si mesmos, nem ao homem que tentou salvá-los.

Depois disso Tera saiu de Ur dos Caldeus, e com ele Abrão e Sarai, sua mulher, e Ló, filho de Harã; e viajaram em direção à terra de Canaã. Mas quando chegaram à cidade de Harã, ficaram ali, e ali moraram muitos anos.

E certa noite Abrão ficou acordado, observando as estrelas desde a tarde até a manhã, para ver que espécie de ano viria para as chuvas e para a colheita, segundo o costume dos sábios dos caldeus. E, estando ele sozinho a observar, uma palavra veio ao seu coração, e ele disse: "Todos os sinais das estrelas, e os sinais do sol e da lua, estão na mão do Senhor. Para que os investigo eu? Se ele quiser, faz chover de manhã e de tarde; e se quiser, retém a chuva. Todas as coisas estão na sua mão". E orou naquela noite, dizendo: "Meu Deus, Deus altíssimo, só tu és Deus para mim. Devo voltar para Ur dos Caldeus, onde me procuram, ou ficar aqui? Endireita diante de mim, teu servo, o caminho certo, e não me deixes andar no engano do meu coração".

E quando acabou de orar, eis que a palavra do Senhor lhe veio, dizendo: "Sai da tua terra, e da tua parentela, e da casa do teu pai, para a terra que eu te mostrarei. E farei de ti uma nação grande e numerosa, e te abençoarei, e engrandecerei o teu nome, e serás bendito na terra; e em ti serão benditas todas as famílias da terra. Eu serei Deus para ti, e para o teu filho, e para o filho do teu filho, e para toda a tua descendência. Não temas; desde agora, e por todas as gerações da terra, eu sou o teu Deus".

Então Abrão se alegrou, e disse a Tera, seu pai, que ia sair de Harã para a terra de Canaã, para vê-la e habitar nela. E Tera o abençoou e disse: "Vai em paz, meu filho. Que o Deus eterno endireite o teu caminho, e o Senhor seja contigo e te proteja de todo mal. Vai em paz; e se vires uma terra agradável aos teus olhos para nela morar, vem e leva-me contigo, e leva contigo Ló, o filho do teu irmão Harã, como teu próprio filho. O Senhor seja contigo".

Assim Abrão saiu de Harã, e levou Sarai, sua mulher, e Ló, o filho do seu irmão, e entrou na terra de Canaã; e ali as promessas de Deus para ele começaram a cumprir-se, como a Bíblia conta. E até hoje Abraão é lembrado como o homem que, enquanto o mundo inteiro ao seu redor se curvava aos ídolos, ergueu os olhos e encontrou o Deus vivo.