✦ ASTRONEXOVOZES DA BÍBLIA
A03

A disputa dos três guardas

1 Esdras 3–4
A Disputa dos Três Guardas
Antigo Testamento★ narrativa
Apócrifo — fora do cânon bíblico. Esta história vem de 1 Esdras (3 Esdras), escrito antigo que as igrejas não incluem entre os 73 livros da Bíblia. É oferecida como documento histórico e literário, não como Escritura.

Depois que os judeus foram levados cativos para a Babilônia, aquela terra passou ao domínio dos reis da Pérsia. E um livro antigo, chamado Primeiro Esdras, conta esta história de Dario, rei da Pérsia, e de como os judeus voltaram para a sua própria terra.

O rei Dario deu um grande banquete a todos os príncipes e governadores do seu império, desde a Índia até a Etiópia, cento e vinte e sete províncias. Comeram e beberam, e quando o banquete terminou, o rei foi para o seu quarto e dormiu.

Ora, três moços eram os guardas do corpo do rei, e vigiavam junto ao seu leito enquanto ele dormia. E, para passar a longa noite, disseram uns aos outros: "Que cada um de nós diga qual é, no seu entender, a coisa mais forte do mundo, e a escreva; e quando o rei acordar, ele julgará entre nós, e àquele cuja palavra for a mais sábia o rei dará grandes presentes e grandes honras".

O primeiro escreveu: "O vinho é o mais forte". O segundo escreveu: "O rei é o mais forte". E o terceiro escreveu: "As mulheres são as mais fortes; mas, acima de todas as coisas, a Verdade leva a vitória". E selaram os três escritos, e os puseram debaixo do travesseiro do rei.

Quando o rei acordou, entregaram-lhe os escritos, e ele os leu. Então mandou reunir todos os príncipes, governadores e capitães, e assentou-se na sua sala de julgamento, e os três moços foram trazidos à sua presença. E o rei disse: "Explicai-nos as vossas palavras".

O primeiro começou, e falou da força do vinho: "Ó senhores, como é forte o vinho! Ele desencaminha a mente de todos os que o bebem. Faz que a mente do rei e a mente do órfão sejam uma só; a do escravo e a do homem livre, a do pobre e a do rico. Transforma todo pensamento em festa e alegria, de modo que o homem se esquece de toda tristeza e de toda dívida. Faz os homens esquecerem a amizade, e faz irmãos puxarem a espada contra irmãos; e quando despertam do vinho, não se lembram do que fizeram. Ó senhores, não é o vinho o mais forte, visto que obriga os homens a fazer tais coisas?"

Depois o segundo começou, e falou da força do rei: "Ó senhores, não são fortes os homens, que dominam a terra e o mar e tudo o que neles há? Mas o rei é mais forte ainda, porque é senhor de todos os homens, e eles lhe obedecem. Se ele os manda guerrear uns contra os outros, eles o fazem; se os envia contra o inimigo, eles vão, e derrubam montes, muralhas e torres. Matam e morrem, e não desobedecem à palavra do rei; e se vencem, trazem ao rei todos os despojos. E os que não vão à guerra, mas lavram a terra, trazem da sua colheita os tributos ao rei. Ele é um homem só; contudo, se diz Matai, eles matam; se diz Poupai, eles poupam; se diz Construí, eles constroem; se diz Plantai, eles plantam. Todo o seu povo lhe obedece, enquanto ele se assenta à mesa, e come, e bebe, e dorme, e todos montam guarda ao seu redor, e ninguém pode ir cuidar dos seus próprios negócios. Ó senhores, como não seria o rei o mais forte, sendo obedecido dessa maneira?"

Então o terceiro, que era Zorobabel, um moço dentre os judeus, começou a falar: "Ó senhores, grande é o rei, e grande é o vinho, e os homens são muitos; mas quem é que domina sobre todos eles? São as mulheres. Porque foram mulheres que deram à luz o próprio rei, e todo homem que domina o mar e a terra. Delas todos nasceram; e foram mulheres que criaram aqueles que plantaram as vinhas de onde vem o vinho. Os homens não podem viver sem as mulheres. Um homem ajunta ouro e prata e toda coisa preciosa; então vê uma mulher formosa, e larga tudo aquilo, e fica a olhá-la de boca aberta, e a deseja mais do que o ouro, a prata ou qualquer coisa preciosa. O homem deixa o próprio pai, que o criou, deixa a própria terra, e se une à sua mulher. Muitos perderam o juízo por causa das mulheres, e por elas se tornaram escravos; muitos pereceram, tropeçaram e pecaram por causa das mulheres.

"E agora, não acreditais em mim? Não é grande o rei no seu poder, de modo que todas as terras temem tocá-lo? Pois eu o vi com Apame, filha do ilustre Bartaco, a favorita do rei, assentada à sua direita; e ela tirou a coroa da cabeça do rei e a pôs na sua própria cabeça, e deu um tapa no rei com a mão esquerda. E diante de tudo isso o rei apenas a olhava de boca aberta. Se ela lhe sorria, ele ria; se ela se zangava, ele a afagava e lisonjeava, para que fizesse as pazes com ele. Ó senhores, como não hão de ser fortes as mulheres, se podem fazer tais coisas?"

Então o rei e os príncipes se entreolharam. E Zorobabel começou a falar da Verdade:

"Ó senhores, não são fortes as mulheres? Grande é a terra, e alto é o céu, e veloz é o sol na sua carreira, pois percorre a volta dos céus num só dia. Não é grande aquele que fez estas coisas? Por isso grande é a Verdade, e mais forte do que todas as coisas. Toda a terra invoca a Verdade, e o céu a bendiz; todas as obras estremecem diante dela, e nela não há injustiça alguma. O vinho é injusto, o rei é injusto, as mulheres são injustas, todos os filhos dos homens são injustos, e injustas são todas as suas obras; não há verdade neles, e na sua injustiça perecerão. Mas a Verdade permanece, e é forte para sempre; ela vive e vence pelos séculos dos séculos. Com ela não há acepção de pessoas; ela faz o que é justo, e se afasta de tudo o que é injusto e mau, e todos aprovam as suas obras. No seu julgamento não há injustiça; dela são a força, o reino, o poder e a majestade de todos os séculos. Bendito seja o Deus da Verdade!"

Quando ele acabou de falar, todo o povo bradou em alta voz: "Grande é a Verdade, e mais poderosa que todas as coisas!"

Então o rei disse a Zorobabel: "Pede o que quiseres, além do que está escrito no nosso acordo, e eu te darei, porque foste achado o mais sábio; e te assentarás junto de mim, e serás chamado meu parente".

Mas Zorobabel não pediu riquezas para si. Disse ao rei: "Lembra-te do voto que fizeste no dia em que recebeste o teu reino: reconstruir Jerusalém, e devolver todos os vasos sagrados que foram tirados do templo. Fizeste também o voto de reedificar o templo, que os edomitas queimaram quando Judá foi devastada pelos caldeus. E agora, ó rei, meu senhor, é isto que te peço: cumpre o voto que fizeste com a tua própria boca ao Rei do céu".

Então o rei Dario levantou-se e o beijou, e escreveu cartas para todos os governadores dalém do rio, para que dessem passagem segura a ele e a todos os que subissem com ele para reconstruir Jerusalém. Escreveu cartas para que a terra ficasse livre, e para que os edomitas devolvessem as aldeias que haviam tomado dos judeus; deu madeira do Líbano, e dinheiro para a construção do templo, e para os sacrifícios e as vestes dos sacerdotes, até que tudo estivesse terminado.

E quando Zorobabel saiu da presença do rei, ergueu o rosto para o céu, na direção de Jerusalém, e louvou o Rei do céu, dizendo: "De ti vem a vitória, de ti vem a sabedoria, e tua é a glória; e eu sou teu servo. Bendito és tu, que me deste sabedoria; e a ti dou graças, ó Senhor dos nossos pais".

Depois contou tudo aos seus irmãos judeus, e eles louvaram a Deus com ele, porque por meio dele lhes fora dada a liberdade de subir e reconstruir Jerusalém e o templo que era chamado pelo nome de Deus. E partiram com música e alegria, e o rei enviou mil cavaleiros para conduzi-los em segurança pelo caminho; e assim os cativos de Judá voltaram enfim para a sua própria terra.