Depois que Abel foi morto, e seu irmão Caim partiu para outra terra, Deus deu novamente um filho a Adão e Eva. A esse filho deram o nome de Sete; e outros filhos e filhas lhes foram dados, pois Adão e Eva viveram muitos anos. Mas por fim morreram, como Deus havia dito que deveriam morrer, porque tinham comido da árvore que Deus os havia proibido de comer.
Quando Adão morreu, já havia muita gente na terra; pois os filhos de Adão e Eva tiveram muitos outros filhos; e quando estes cresceram, também tiveram filhos; e estes, por sua vez, tiveram outros. E naqueles primeiros tempos as pessoas viviam muito mais do que vivem hoje. Pouquíssimas pessoas chegam hoje aos cem anos; mas naqueles dias, quando a terra era nova, os homens muitas vezes chegavam a viver oitocentos ou até novecentos anos. Assim, depois de algum tempo, aquela parte da terra onde viviam os filhos de Adão começou a encher-se de gente.
É triste contar que, com o passar do tempo, mais e mais dessas pessoas se tornaram perversas, e cada vez menos delas cresciam para se tornarem homens e mulheres de bem. Todo o povo vivia perto uns dos outros, e poucos partiam para outras terras; e assim aconteceu que até os filhos de homens e mulheres bons aprendiam a ser maus, como as pessoas ao seu redor.
E quando Deus olhou para o mundo que havia feito, viu quão perversos os homens se haviam tornado, e que todo pensamento e todo ato do homem era mau, e continuamente só mau.
Mas, embora a maior parte das pessoas do mundo fosse muito perversa, havia também algumas pessoas boas, ainda que muito poucas. O melhor de todos os homens que viveram naquele tempo foi um homem chamado Enoque. Não era o filho de Caim, mas outro Enoque, que vinha da família de Sete, o filho de Adão nascido depois da morte de Abel. Enquanto tantos ao redor de Enoque praticavam o mal, esse homem fazia somente o que era certo. Ele andava com Deus, e Deus andava com ele e falava com ele. E por fim, quando Enoque tinha trezentos e sessenta e cinco anos, Deus o levou da terra para o céu. Ele não morreu, como todas as pessoas têm morrido desde que Adão desobedeceu a Deus, mas "já não era, porque Deus o tomou". Isso quer dizer que Enoque foi levado da terra sem morrer.
Enoque deixou um filho chamado Matusalém. Nada sabemos de Matusalém, a não ser que viveu novecentos e sessenta e nove anos, mais tempo do que qualquer outro homem que já viveu. Mas por fim Matusalém morreu, como todo o seu povo, exceto seu pai Enoque. Quando Matusalém morreu, o mundo estava muito perverso. E Deus olhou para a terra e disse:
"Tirarei todos os homens da terra que fiz, porque os homens do mundo são maus, e continuamente maus."
Mas mesmo naqueles tempos maus, Deus viu um homem bom. Seu nome era Noé. Noé procurava fazer o que era reto aos olhos de Deus. Como Enoque havia andado com Deus, assim Noé andava com Deus e falava com ele. E Noé tinha três filhos: seus nomes eram Sem, Cam e Jafé.
Deus disse a Noé: "Chegou o tempo em que todos os homens e mulheres da terra serão destruídos. Todos devem morrer, porque todos são perversos. Mas tu e a tua família sereis salvos, porque somente tu procuras fazer o que é certo."
Então Deus disse a Noé como ele poderia salvar a sua vida e a vida de seus filhos. Ele deveria construir um barco muito grande, tão grande quanto os maiores navios que se fazem em nosso tempo; muito comprido, muito largo e muito fundo; com um teto por cima; e feito como uma casa comprida e larga, de três andares, mas construído de modo a flutuar sobre a água. Um navio assim era chamado "arca". Deus mandou Noé construir essa arca e tê-la pronta para o tempo em que precisaria dela.
"Porque", disse Deus a Noé, "vou trazer um grande dilúvio de águas sobre a terra, para cobrir toda a terra e afogar todas as pessoas que nela vivem. E como os animais da terra serão afogados com as pessoas, deves fazer a arca grande o bastante para abrigar um casal de cada espécie de animal, e vários casais de alguns animais de que os homens precisam, como ovelhas, cabras e bois; para que haja animais, além de homens, para viver sobre a terra depois que o dilúvio houver passado. E deves levar para a arca alimento para ti e tua família, e para todos os animais contigo, alimento bastante para durar um ano, enquanto o dilúvio permanecer sobre a terra."
E Noé fez o que Deus lhe mandou fazer, embora devesse parecer muito estranho a todas as pessoas ao redor construir aquela grande arca onde não havia água em que ela pudesse navegar. E levou muito tempo, cento e vinte anos, o trabalho de Noé e seus filhos na construção da arca, enquanto os perversos ao redor se admiravam e sem dúvida riam de Noé, por construir um grande navio onde não havia mar. Por fim a arca ficou pronta, e erguia-se como uma grande casa sobre a terra. Havia uma porta de um lado, e uma janela no teto, para deixar entrar a luz. Então Deus disse a Noé: "Entra na arca, tu e tua mulher, e teus três filhos, e as mulheres deles convosco; porque o dilúvio das águas virá muito em breve. E leva contigo animais de toda espécie, e aves, e criaturas que rastejam; sete casais daqueles de que os homens precisarão, e um casal de todos os demais; para que todas as espécies de animais sejam conservadas vivas sobre a terra."
Assim Noé e sua mulher, e seus três filhos, Sem, Cam e Jafé, com suas mulheres, entraram na arca. E Deus trouxe à porta da arca os animais, as aves e as criaturas rastejantes de toda espécie; e eles entraram na arca, e Noé e seus filhos os puseram em seus lugares e trouxeram alimento para todos. E então a porta da arca foi fechada, para que não pudessem entrar mais pessoas nem mais animais.
Em poucos dias a chuva começou a cair, como nunca havia chovido antes. Parecia que os céus se tinham aberto para derramar grandes torrentes sobre a terra. Os riachos encheram, e os rios subiram, cada vez mais alto, e a arca começou a flutuar sobre a água. As pessoas deixaram suas casas e correram para as colinas, mas logo as colinas ficaram cobertas, e todas as pessoas que estavam nelas se afogaram.
Alguns subiram ao topo de montanhas mais altas, mas a água subiu mais e mais, até que até as montanhas ficaram cobertas, e todas as pessoas, perversas como haviam sido, afogaram-se no grande mar que agora rolava sobre toda a terra onde os homens tinham vivido. E todos os animais — os animais domésticos, gado, ovelhas e bois — se afogaram; e os animais selvagens — leões, tigres e todos os demais — também se afogaram. Até as aves pereceram, pois seus ninhos nas árvores foram arrastados, e não havia lugar para onde pudessem fugir voando da terrível tempestade. Por quarenta dias e quarenta noites a chuva continuou, até que não restou fôlego de vida fora da arca.
Depois de quarenta dias a chuva parou, mas a água permaneceu sobre a terra por mais de seis meses; e a arca, com todos os que nela estavam, flutuava sobre o grande mar que cobria a terra. Então Deus enviou um vento para soprar sobre as águas e secá-las; e assim, pouco a pouco, as águas foram baixando. Primeiro as montanhas surgiram acima das águas, depois as colinas se ergueram; e finalmente a arca deixou de flutuar e pousou sobre uma montanha chamada Monte Ararate. Mas Noé não podia ver o que havia acontecido na terra, porque a porta estava fechada, e a janela devia estar no teto. Ele sentiu, porém, que a arca já não se movia, e soube que as águas deviam ter baixado. Então, depois de esperar algum tempo, Noé abriu uma janela e soltou uma ave chamada corvo. Ora, o corvo tem asas fortes; e esse corvo voou em círculos, dando voltas e mais voltas, até que as águas baixaram e ele pôde encontrar um lugar para pousar, e não voltou mais à arca.
Depois de esperá-lo por um tempo, Noé soltou uma pomba; mas a pomba não pôde encontrar lugar algum para pousar, e voltou voando à arca, e Noé a recolheu de novo para dentro. Então Noé esperou mais uma semana, e depois soltou a pomba outra vez. E ao entardecer a pomba voltou à arca, que era o seu lar; e no bico trazia uma folha fresca, que havia colhido de uma oliveira.
Assim Noé soube que as águas tinham baixado o suficiente para deixar as árvores crescerem de novo. Esperou mais uma semana e soltou a pomba novamente; mas desta vez a pomba voou para longe e nunca mais voltou. E Noé soube que a terra estava ficando seca outra vez. Então removeu uma parte do teto e olhou para fora, e viu que havia terra seca ao redor de toda a arca. Noé havia agora vivido na arca pouco mais de um ano, e alegrou-se de ver de novo a terra verde e as árvores. E Deus disse a Noé:
"Sai da arca, com tua mulher, e teus filhos, e as mulheres deles, e todos os seres viventes que estão contigo na arca."
Então Noé abriu a porta da arca e saiu com sua família, e pisou mais uma vez o chão. Todos os animais, aves e criaturas rastejantes que estavam na arca saíram também, e começaram de novo a trazer vida à terra.
A primeira coisa que Noé fez, ao sair da arca, foi dar graças a Deus por haver salvado toda a sua família, quando o restante das pessoas da terra foi destruído. Ele construiu um altar, colocou sobre ele uma oferta ao Senhor, entregou a si mesmo e à sua família a Deus, e prometeu fazer a vontade de Deus.
E Deus agradou-se da oferta de Noé, e Deus disse:
"Não tornarei a destruir a terra por causa dos homens, por piores que sejam. De agora em diante, nenhum dilúvio cobrirá de novo a terra; mas as estações — primavera, verão, outono e inverno — permanecerão sem mudança. Eu vos dou a terra; sereis os senhores do solo e de todo ser vivente que há sobre ele."
Então Deus fez aparecer um arco-íris no céu, e disse a Noé e a seus filhos que, sempre que eles ou os que viessem depois deles vissem o arco-íris, deveriam lembrar-se de que Deus o havia posto no céu, sobre as nuvens, como sinal da sua promessa de que sempre se lembraria da terra e das pessoas que nela vivem, e de que nunca mais enviaria um dilúvio para destruir os homens da terra.
Assim, todas as vezes que vemos o belo arco-íris, devemos lembrar que ele é o sinal da promessa de Deus ao mundo.