Assim, Ló vivia em Sodoma, e Abrão vivia em sua tenda nas montanhas de Canaã. Naquele tempo, na planície do Jordão, perto da entrada do Mar Morto, havia cinco cidades, das quais Sodoma e Gomorra eram duas; e cada uma das cinco cidades era governada pelo seu próprio rei. Mas acima de todos esses pequenos reis e seus pequenos reinos havia um rei maior, que vivia longe, perto da terra da Caldeia, de onde Abrão tinha vindo, e que dominava todas as terras, próximas e distantes.
Depois de algum tempo, esses pequenos reis da planície não quiseram mais obedecer ao rei maior; então ele, com todo o seu exército, fez guerra contra eles. Travou-se uma batalha na planície, não longe de Sodoma, e os reis de Sodoma e Gomorra foram derrotados na batalha, e seus soldados foram mortos. Então o rei que havia vencido seus inimigos veio a Sodoma, tomou tudo o que pôde encontrar na cidade e levou embora todos os seus habitantes, com a intenção de conservá-los como escravos. Depois de uma batalha, naqueles tempos, o exército vencedor levava todos os bens e fazia escravos de todas as pessoas do lado vencido.
Assim Ló, com tudo o que possuía, foi levado pelos inimigos, que subiram o vale desde Sodoma e não pararam para descansar até chegarem às nascentes do rio Jordão, num lugar mais tarde chamado Dã. De modo que tudo o que a escolha egoísta de Ló lhe rendeu foi perder tudo o que tinha e tornar-se prisioneiro e escravo.
Alguém fugiu da batalha e veio ter com Abrão, que vivia em sua tenda debaixo do carvalho, perto de Hebrom. Assim que Abrão soube o que havia acontecido, reuniu todos os homens que estavam com ele, seus servos, seus pastores, sua gente e seus amigos; e conduziu-os no encalço do inimigo que havia levado Ló. Seguiu tão depressa quanto seus homens podiam marchar, e encontrou o inimigo, com todos os bens que haviam tomado e todos os seus prisioneiros, em Dã, um dos lugares onde nasce o rio Jordão.
Abrão lançou-se sobre os inimigos à noite, enquanto dormiam, combateu-os e os pôs em fuga; tão de repente que eles deixaram tudo para trás e correram para longe, entre as montanhas. E no acampamento deles Abrão encontrou seu sobrinho Ló, são e salvo, com a mulher e as filhas, e todos os seus bens, e, além disso, todos os bens e todas as outras pessoas que haviam sido levadas de Sodoma.
Então o rei de Sodoma veio ao encontro de Abrão, num lugar perto da cidade de Jerusalém, que mais tarde foi chamado "Vale do Rei". E com ele veio o rei de Jerusalém, que naquele tempo se chamava Salém. O nome desse rei era Melquisedeque, e, ao contrário da maioria dos outros reis da terra naquele tempo, ele era adorador do Senhor Deus, como Abrão. E o rei Melquisedeque abençoou Abrão e disse: "Que o Senhor Deus Altíssimo, que fez o céu e a terra, abençoe Abrão; e bendito seja o Senhor Deus Altíssimo, que entregou os teus inimigos na tua mão."
E Abrão deu um presente ao rei Melquisedeque, porque ele adorava ao Senhor. E Abrão devolveu ao rei de Sodoma todas as pessoas e todos os bens que haviam sido levados; e não quis receber pagamento algum por havê-los salvado.
Poderíamos pensar que, depois disso, Ló teria percebido que era errado viver em Sodoma; mas ele voltou àquela cidade e fez ali o seu lar mais uma vez, ainda que seu coração se entristecesse com a maldade que via ao seu redor.
Depois que Abrão voltou à sua tenda debaixo dos carvalhos de Hebrom, um dia o Senhor Deus lhe falou e disse:
"Não temas, Abrão; eu serei um escudo para guardar-te dos inimigos, e te darei uma recompensa muito grande por me servires."
E Abrão disse: "Ó Senhor Deus, de que me pode valer qualquer coisa, se não tenho filho a quem deixá-la; e, depois que eu morrer, quem possuirá tudo o que tenho não será meu filho, mas um servo." Pois, embora Abrão tivesse uma grande família de pessoas ao seu redor, e muitos servos, não tinha herdeiro, e já era um homem velho, e sua mulher Sarai também era velha.
E Deus disse a Abrão: "Aquele que há de receber o que possuis não será um estranho, mas será teu próprio filho."
E naquela noite Deus levou Abrão para fora da sua tenda, sob o céu, e lhe disse:
"Olha agora para o céu e conta as estrelas, se puderes. As pessoas que de ti procederão, os teus descendentes, nos anos que virão, serão muito mais numerosas do que todas as estrelas que podes ver."
Abrão não via como essa promessa de Deus poderia cumprir-se; mas creu na palavra de Deus e não duvidou dela. E Deus amou Abrão porque ele creu na promessa. Embora Abrão não pudesse ver, naquele tempo, como a promessa de Deus se cumpriria, nós sabemos que ela se cumpriu, pois o povo israelita da história bíblica, e os judeus espalhados hoje pelo mundo inteiro, todos vieram de Abrão.
Depois disso, um dia, quando o sol se punha, Deus veio novamente a Abrão e lhe contou muitas coisas que haveriam de acontecer. Deus disse a Abrão:
"Depois que a tua vida terminar, os que de ti procederem, os teus descendentes, irão para uma terra estranha. O povo daquela terra os fará escravos e será cruel com eles. E ficarão naquela terra estranha quatrocentos anos; e depois sairão daquela terra, não mais como escravos, mas muito ricos. E, passados os quatrocentos anos, voltarão a esta terra, e ela será o seu lar. Tudo isso acontecerá depois da tua vida, pois tu morrerás em paz e serás sepultado numa boa velhice. E toda esta terra onde vives pertencerá ao teu povo."
Para que Abrão se lembrasse dessa promessa de Deus, Deus mandou que Abrão preparasse uma oferta de um cordeiro, um bode e um par de pombos, e que os dividisse em pedaços, colocando-os uns diante dos outros. E naquela noite Abrão olhou, e viu uma fumaça e um fogo, como uma tocha flamejante, que passava por entre os pedaços da oferta.
Assim se fez uma promessa entre Deus e Abrão. Deus prometeu dar a Abrão um filho, um povo e uma terra, e Abrão prometeu servir a Deus fielmente.
Uma promessa como essa, feita entre duas pessoas, chamava-se aliança; e essa foi a aliança de Deus com Abrão.