Certa época, enquanto Eliseu vivia em Israel, o general do exército da Síria chamava-se Naamã. Era um homem grande em posição e poder, e valente na batalha, pois havia conquistado vitórias para a Síria. Mas uma triste e terrível desgraça sobreveio a Naamã: ele era leproso. Leproso era quem tinha a doença chamada lepra, que ainda existe naquelas terras. A pele do leproso torna-se de um branco mortal e cobre-se de escamas. Um a um, os dedos das mãos e dos pés, as mãos e os pés, os braços e as pernas vão apodrecendo, até que por fim o homem morre; e para essa doença não havia cura. E, coisa estranha, em meio a tudo isso o leproso não sente dor alguma, e muitas vezes por longo tempo se recusa a acreditar que tem lepra.
Havia na casa de Naamã, em Damasco, na Síria, uma menina que servia à esposa de Naamã. Era uma escravinha, roubada da casa de sua mãe em Israel e levada cativa para a Síria. Mesmo quando não havia guerra aberta entre a Síria e Israel, bandos de homens saíam de ambos os lados, destruindo aldeias na fronteira, roubando o povo e levando as pessoas para serem mortas ou vendidas como escravas. Mas essa menina, ainda que houvesse sofrido tamanha injustiça, tinha um coração bondoso, cheio de pena de seu senhor Naamã; e um dia ela disse à sua senhora:
"Quisera eu que o meu senhor Naamã pudesse encontrar-se com o profeta que vive em Samaria, pois ele o curaria da lepra."
Alguém contou a Naamã o que a menina havia dito, e Naamã falou disso ao rei da Síria. Ora, o rei da Síria amava muito a Naamã; e quando ia adorar no templo do seu deus, dentre todos os seus nobres escolhia Naamã como o único em cujo braço se apoiava. Desejava muito que a lepra de Naamã fosse curada, e disse: "Enviarei uma carta ao rei de Israel, pedindo-lhe que mande o seu profeta curar-te."
Assim Naamã, com um grande séquito, partiu em seu carro de Damasco para Samaria, uma viagem de cerca de cem milhas. Levou consigo, como presente, uma grande soma em ouro e prata, e muitos mantos e vestes preciosas. Chegou diante do rei de Israel e entregou-lhe a carta do rei da Síria. E na carta estava escrito:
"Com esta carta te envio Naamã, meu servo, e desejo que o cures da sua lepra."
O rei da Síria supunha que, estando em Samaria esse profeta capaz de curar a lepra, ele estivesse às ordens do rei de Israel e devesse fazer tudo quanto o seu rei lhe mandasse; e como não conhecia o profeta, mas conhecia o rei, escreveu ao rei. Este, porém, ficou muito alarmado ao ler a carta.
"Acaso sou eu Deus", disse ele, "para matar e para dar vida? Por que me envia o rei da Síria um homem para que eu o cure da lepra? Não vedes que ele procura um pretexto para fazer guerra, pedindo-me que eu faça o que homem nenhum pode fazer?"
E o rei de Israel rasgou as suas vestes, como faziam os homens quando estavam em grande aflição. O profeta Eliseu soube da carta e do susto do rei, e mandou-lhe um recado:
"Por que estás tão assustado? Que esse homem venha a mim, e ele saberá que há um profeta do Senhor em Israel."
Veio, pois, Naamã com os seus carros, os seus cavalos e o seu séquito, e parou à porta da casa de Eliseu. Eliseu não saiu ao seu encontro, mas enviou-lhe o seu servo, dizendo:
"Vai e lava-te sete vezes no rio Jordão, e a tua carne e a tua pele ficarão puras, e estarás livre da lepra."
Mas Naamã ficou muito irado, porque Eliseu não tratara com mais respeito um homem tão importante como ele. Esquecia-se, ou não sabia, de que pelas leis de Israel homem algum podia tocar um leproso, nem sequer aproximar-se dele; e disse:
"Ora, eu pensava que ele certamente sairia ao meu encontro, agitaria a mão sobre o lugar da lepra, invocaria o nome do Senhor seu Deus, e assim me curaria! Não são o Abana e o Farpar, os dois rios de Damasco, melhores do que todas as águas de Israel? Não poderia eu lavar-me neles e ficar limpo?"
E Naamã voltou-se e partiu furioso. Mas os seus servos eram mais sábios do que ele. Aproximaram-se, e um deles disse:
"Meu pai, se o profeta te houvesse mandado fazer alguma coisa grande, não a terias feito? Por que então não fazer o que ele diz: 'Lava-te e ficarás limpo'?"
Dali a pouco a ira de Naamã se acalmou, e ele desceu as montanhas até o rio Jordão. Lavou-se sete vezes nas suas águas, como o profeta lhe ordenara. E as escamas da lepra deixaram a sua pele, e a sua carne tornou-se como a carne de uma criancinha, pura e limpa. Então Naamã, já não mais leproso, voltou à casa de Eliseu com toda a sua comitiva, e disse: "Agora sei que não há Deus em toda a terra, senão em Israel. Permite que eu te dê um presente em troca do que fizeste por mim."
Mas os verdadeiros profetas de Deus nunca davam a sua mensagem nem faziam as suas obras por pagamento; e Eliseu disse a Naamã:
"Tão certo como vive o Senhor, diante de quem estou, nada receberei."
E Naamã insistiu para que aceitasse o presente, mas ele recusou. Então Naamã pediu como favor que lhe fosse permitido levar da terra de Israel tanta terra quanta pudesse ser carregada por duas mulas, para com ela construir um altar; pois pensava que um altar ao Deus de Israel só poderia ser feito com terra da terra de Israel; e disse:
"De hoje em diante não oferecerei holocausto nem sacrifício a nenhum outro deus, senão ao Deus de Israel. Quando eu for com o meu senhor, o rei da Síria, adorar no templo de Rimom, seu deus, e o meu senhor se apoiar no meu braço, e eu me inclinar diante de Rimom com ele, que o Senhor me perdoe isso, que parecerá como se eu adorasse outro deus."
E Eliseu lhe disse: "Vai em paz."
Então Naamã seguiu o seu caminho de volta à sua terra. Mas Geazi, o servo de Eliseu, disse consigo mesmo:
"O meu senhor deixou partir esse sírio sem nada aceitar dele; mas eu correrei atrás dele e lhe pedirei um presente."
Geazi correu, pois, atrás de Naamã; e Naamã, vendo-o vir em seu encalço, parou o carro e desceu ao seu encontro. E Geazi lhe disse:
"O meu senhor enviou-me a dizer-te que agora mesmo chegaram à sua casa dois jovens, filhos dos profetas; queres dar-lhes um talento de prata e duas mudas de roupa?"
E Naamã disse: "Deixa que eu te dê dois talentos de prata."
Pôs então dois talentos de prata em dois sacos, um talento em cada saco, e os entregou a Geazi, e com eles duas mudas de roupa fina; e mandou tudo por dois de seus servos. Mas antes de chegarem à casa de Eliseu, Geazi tomou os presentes e os escondeu. Depois entrou na casa e apresentou-se diante de Eliseu. E Eliseu lhe perguntou: "Geazi, onde estiveste?"
E Geazi respondeu: "Não estive em lugar nenhum."
E Eliseu lhe disse:
"Não foi contigo o meu coração, e não te vi eu, quando aquele homem desceu do carro ao teu encontro? Acaso é este o tempo de receber presentes de dinheiro e de vestes, ou presentes de vinhas e olivais, de ovelhas e bois? Porque fizeste esta maldade, a lepra de Naamã cairá sobre ti, e se apegará a ti e aos teus filhos depois de ti, para sempre!"
E Geazi saiu da presença de Eliseu leproso, com a pele branca como a neve.