Da corte do grande rei em Susã, voltamo-nos mais uma vez para os judeus de Jerusalém e da Judeia. Por muito tempo depois que o primeiro grupo chegou à terra sob Zorobabel, muito poucos judeus de outros países se juntaram a eles. Os judeus da Judeia eram pobres e estavam desanimados. Muitos deles haviam tomado dinheiro emprestado que não podiam pagar, e tinham sido vendidos como escravos a judeus mais ricos. Ao seu redor, por todos os lados, estavam os seus inimigos: os povos idólatras da terra e os samaritanos ao norte. Esses inimigos roubavam-lhes as colheitas dos campos e também enviavam constantemente relatos maldosos e falsos a seu respeito aos governadores persas. Muitos dos homens de Israel haviam-se casado com mulheres da terra, que não eram da raça israelita, e os seus filhos cresciam meio pagãos e meio judeus, sem saber falar a língua dos seus pais e sem nada conhecer do Deus verdadeiro.
Noventa anos depois que os judeus haviam voltado à terra, Jerusalém era uma cidadezinha, com muitas das suas velhas casas ainda em ruínas, e sem muralha ao redor. Naqueles tempos, nenhuma cidade podia estar segura dos seus inimigos sem uma muralha; de modo que Jerusalém ficava indefesa diante dos bandos de salteadores que subiam do deserto e levavam quase tudo o que o povo conseguia ganhar.
Exatamente no tempo em que a terra estava na mais profunda necessidade, Deus levantou dois homens para ajudar o seu povo. Esses dois homens foram Esdras e Neemias. Por meio de Esdras, o povo de Judá foi reconduzido ao seu Deus, para adorá-lo, para servi-lo e, especialmente, para amar o livro de Deus como nunca o havia amado antes. E, mais ou menos na mesma época, Neemias deu nova esperança, coragem e força ao povo, ajudando-o a construir uma muralha ao redor de Jerusalém. A obra desses dois homens trouxe à Judeia paz e fartura, e atraiu muitos judeus de outras terras ao seu próprio país.
Esdras era um sacerdote que vivia na cidade da Babilônia, descendente da família de Arão, o primeiro sacerdote. Era também um profeta, por meio de quem Deus falava ao seu povo. Mas, acima de tudo, Esdras era um amante do livro de Deus, numa época em que o livro do Senhor estava quase esquecido. Quase todos os livros do que chamamos Antigo Testamento já estavam escritos havia muito tempo; mas naqueles dias não havia livros impressos; cada cópia era escrita separadamente, à pena; e, como o trabalho era grande, havia pouquíssimas cópias dos diferentes livros da Bíblia. E essas cópias estavam em lugares diferentes: um livro da Bíblia estava num lugar, outro livro estava em outro. Nenhum homem, naqueles tempos anteriores a Esdras, jamais possuíra ou vira o Antigo Testamento inteiro num só livro ou conjunto de livros.
Esdras começou a procurar por toda parte, entre os judeus, cópias desses diferentes livros. Sempre que encontrava um, transcrevia-o e guardava a cópia, e também levava outros homens a copiar os livros à medida que os encontravam. Por fim, Esdras teve cópias escritas de todos os livros do Antigo Testamento, exceto os últimos. Foram escritos quase exatamente como os temos hoje, com a diferença de que as suas cópias eram todas em hebraico, a língua falada pelos homens que escreveram a maior parte do Antigo Testamento.
Esdras reuniu todos esses diferentes livros, fazendo de muitos livros um só. Esse grande livro foi escrito em pergaminho, ou pele de carneiro, em longos rolos, como nos tempos antigos se escreviam todos os livros. Quando o livro ficou pronto, foi chamado "O Livro da Lei", porque continha a lei de Deus para o seu povo, tal como dada por meio de Moisés, de Samuel, de Davi, de Isaías e de todos os outros profetas.
Quando Esdras terminou de escrever esse livro da lei, empreendeu uma longa viagem da Babilônia à Judeia, levando consigo os rolos do livro. Com Esdras foi um grupo de homens a quem ele havia ensinado a amar a lei, a escrever cópias dela, a lê-la e a ensiná-la a outros. Esses homens, que dedicavam a vida a estudar, copiar e ensinar a lei, eram chamados "escribas", palavra que significa "escritores".
Esdras foi o primeiro e o maior desses escribas; mas, a partir do seu tempo, houve muitos escribas entre os judeus, tanto na Judeia como em todas as outras terras. Pois, onde quer que os judeus vivessem, começaram a ler a Bíblia e a amá-la. Chegou o tempo, pouco depois dos dias de Esdras, em que, em cada lugar onde os judeus se reuniam para adorar, guardava-se pelo menos uma cópia de todos os livros do Antigo Testamento; de modo que não havia mais perigo de que a Bíblia, ou qualquer parte dela, se perdesse.
Vós vos lembrais de que havia um só Templo para todos os judeus do mundo, e um só altar. Sobre esse único altar, e somente ali, oferecia-se o sacrifício todos os dias. Mas os judeus dos lugares distantes precisavam reunir-se para adorar, e assim surgiu entre os judeus, em toda parte, o que se chamou "a Sinagoga", palavra que significa "reunião". No princípio, reuniam-se numa sala; mas, depois, construíram casas para as sinagogas, muito parecidas com as nossas igrejas. Algumas dessas sinagogas eram grandes e belas, e nelas o povo se reunia toda semana para adorar a Deus, cantar os salmos, ouvir a leitura da lei e dos profetas e conversar sobre o que tinha ouvido. Era algo como uma reunião de oração; pois qualquer judeu que desejasse falar na reunião podia fazê-lo. Os homens sentavam-se em esteiras estendidas no chão; os chefes da sinagoga ficavam em assentos elevados acima dos demais; as mulheres ficavam numa galeria, de um dos lados, coberta por uma grade de madeira, de modo que podiam ver e ouvir, mas não podiam ser vistas. E, na extremidade da sala mais próxima de Jerusalém, havia uma grande caixa ou arca, chamada "a arca", dentro da qual se guardavam as cópias dos livros do Antigo Testamento. Assim, por meio da sinagoga, todos os judeus do mundo ouviam a leitura do Antigo Testamento, até que muitíssimos deles sabiam de cor cada palavra. Tudo isso resultou do trabalho de Esdras em copiar e ensinar a palavra do Senhor.
E Esdras realizou outra obra quase tão grande quanto a de dar a Bíblia ao mundo. Ensinou ao povo judeu, primeiro em Israel e depois em outras terras, que eles eram o povo de Deus e que deviam viver separados das outras nações. Se tivessem continuado a casar-se com mulheres de outras raças, que adoravam outros deuses, depois de algum tempo não haveria mais judeus, nem adoradores de Deus. Esdras fez com que alguns deles se separassem das suas mulheres de outras nações, e ensinou os judeus a serem um povo à parte, mantendo-se afastados dos que adoravam ídolos, ainda que vivessem entre eles. Assim, Esdras levou os judeus a se considerarem um povo santo, consagrado ao serviço de Deus; e ensinou-lhes a viver separados das outras nações, com os seus próprios costumes e modos de vida, e muito exatos na obediência à lei de Deus contida nos livros dados por Moisés, mesmo em algumas coisas que pareceriam pequenas e sem importância. Deviam ser educados, geração após geração, no serviço e na adoração de Deus. Era a vontade de Deus que os judeus permanecessem separados dos outros povos e muito rigorosos na guarda da sua lei, até que chegasse o tempo de saírem a pregar o evangelho a todo o mundo.
Os judeus, ainda hoje em nosso tempo, continuam a guardar muitas das regras que foram dadas aos seus pais, há muito tempo, por Esdras; de modo que, depois de Moisés, Esdras teve maior influência sobre os judeus do que qualquer outro profeta ou mestre.