Depois do grande dia de ensino e de curas, sobre o qual lemos na última história, Jesus deitou-se para descansar na casa de Simão Pedro. Mas bem cedo na manhã seguinte, antes de clarear, levantou-se e saiu da casa para um lugar onde pudesse estar sozinho, e ali, por longo tempo, orou a Deus. Logo Simão e os outros discípulos deram pela sua falta, e o procuraram até encontrá-lo. Disseram: "Todos estão à tua procura; volta para a cidade."
Mas Jesus disse: "Não, não posso ficar em Cafarnaum. Há outros lugares onde devo pregar o reino de Deus, pois é esta a obra para a qual fui enviado."
E Jesus percorreu todas as cidades daquela parte da Galileia, pregando nas sinagogas, curando toda espécie de doenças e expulsando os espíritos maus. Os seus discípulos estavam com ele, e grandes multidões o seguiam de toda a terra. Vinham ouvir as suas palavras maravilhosas e ver as suas obras maravilhosas.
Enquanto ele estava nessa jornada de pregação pela Galileia, um leproso veio a ele. Lembrai-vos, pela história de Naamã, o sírio (História Treze da Quarta Parte), que terrível doença era a lepra, e ainda é, naquelas terras, e que nenhum homem podia curar o leproso.
Esse pobre leproso prostrou-se aos pés de Jesus e clamou: "Ó Senhor, se quiseres, eu sei que podes tornar-me são e limpo!" Jesus encheu-se de compaixão por aquele pobre homem. Estendeu a mão, tocou-o e disse: "Eu quero; fica limpo!" E num instante todas as escamas da lepra caíram, a sua pele tornou-se pura, e o leproso levantou-se um homem são. Jesus lhe disse: "Não contes a ninguém; mas vai aos sacerdotes, oferece a oferta que a lei ordena, e que eles vejam que foste curado."
Jesus disse isso porque sabia que, se o homem contasse a todos que encontrasse como havia sido curado, tais multidões viriam a ele em busca de cura, que não lhe sobraria tempo para pregar a palavra de Deus; e pregar a palavra de Deus, e não curar os doentes, era a grande obra de Jesus.
Mas o leproso que fora curado não obedeceu à ordem de Jesus. Não conseguia calar-se, e contou a todos os seus conhecidos que Jesus, o grande profeta, lhe havia tirado a lepra. E aconteceu como Jesus havia previsto: multidões tão grandes se juntavam em todas as cidades e aldeias para ver Jesus, e para pedir-lhe que curasse os seus doentes, que Jesus não podia entrar nas cidades para pregar o evangelho. Saía para os campos e para o descampado, e ali o povo o seguia em grandes levas.
Passado algum tempo, Jesus voltou a Cafarnaum, que agora era o seu lar. Assim que o povo soube que ele estava ali, veio em grandes multidões para vê-lo e ouvi-lo. Encheram a casa, o pátio dentro dos seus muros, e até as ruas ao redor, enquanto Jesus, sentado no pátio aberto da casa, os ensinava. Era primavera e fazia calor, e haviam colocado uma cobertura sobre o pátio, como abrigo contra o sol.
Na multidão que escutava Jesus não estavam apenas os seus amigos, mas também alguns que eram seus inimigos: fariseus, homens que faziam grande alarde de servir a Deus, mas eram maus no coração, e escribas, que ensinavam a lei, mas tinham inveja daquele novo mestre, cujas palavras estavam tão acima das deles. Esses homens vigiavam, para achar algum mal em Jesus, a fim de afastar dele o povo.
Enquanto Jesus ensinava, e esses homens escutavam, de repente a cobertura foi retirada acima das suas cabeças. Olharam para cima, e viram que um homem estava sendo descido numa cama, por quatro homens sobre as paredes.
Esse homem tinha uma doença chamada paralisia, que fazia os seus membros tremerem o tempo todo e o deixava desamparado, de modo que não podia andar nem ficar de pé. Ele estava tão ansioso por chegar a Jesus que aqueles homens, vendo que não podiam carregá-lo por entre a multidão, o haviam erguido até o alto da casa, tinham aberto o telhado, e agora o desciam na sua cama diante de Jesus.
Isso mostrava que criam em Jesus, sem dúvida alguma de que ele pudesse curar aquele homem da sua paralisia. Jesus disse ao homem: "Meu filho, tem bom ânimo; os teus pecados estão perdoados!"
Os inimigos de Jesus que estavam sentados perto ouviram essas palavras, e pensaram consigo mesmos, embora não o dissessem em voz alta: "Que coisas ímpias diz este homem! Ele pretende perdoar pecados! Quem, senão o próprio Deus, tem poder para dizer: 'Os teus pecados estão perdoados'?"
Jesus conhecia os seus pensamentos, pois conhecia todas as coisas, e disse: "Por que pensais o mal nos vossos corações? Que é mais fácil dizer: 'Os teus pecados estão perdoados', ou dizer: 'Levanta-te e anda'? Pois eu vos mostrarei que, enquanto estou na terra como o Filho do Homem, tenho o poder de perdoar pecados."
Então falou ao paralítico, deitado no seu leito diante deles: "Levanta-te, toma a tua cama, e vai para a tua casa!"
No mesmo instante uma nova vida e uma nova força vieram ao paralítico. Pôs-se de pé, enrolou a cama em que estivera deitado sem forças, colocou-a sobre os ombros e saiu andando por entre a multidão, que se abriu para lhe dar passagem. O homem foi, forte e são, para a sua casa, louvando a Deus pelo caminho.
Com isso Jesus mostrou que, como Filho de Deus, tinha o direito de perdoar os pecados dos homens.
Aqueles inimigos de Jesus nada puderam dizer, mas no coração o odiaram mais do que nunca, pois viam que o povo cria em Jesus. O povo louvava o Senhor Deus, e sentia temor diante de alguém que podia fazer obras tão poderosas, e dizia: "Hoje vimos coisas extraordinárias!"