Saulo, o jovem que tomara parte na morte de Estêvão, e que espalhara os crentes em Cristo, ainda era o inimigo implacável do evangelho. Soube que alguns dos que haviam fugido de Jerusalém tinham ido para Damasco, cidade fora da terra dos judeus, bem ao norte, e que continuavam a ensinar a Cristo. Saulo decidiu destruir aquela nova igreja em Damasco, como julgava ter destruído a igreja de Jerusalém. Foi, então, ao sumo sacerdote e disse:
"Dá-me uma carta para os chefes dos judeus em Damasco. Ouvi dizer que há naquela cidade alguns seguidores de Jesus de Nazaré; e irei com alguns homens, prenderei essas pessoas, e as amarrarei, e as trarei acorrentadas para Jerusalém."
O sumo sacerdote deu a Saulo as cartas que ele pedia, e Saulo reuniu um grupo de homens para ir com ele a Damasco. Era uma viagem de cerca de dez dias, a cavalo ou em mulas. Enquanto Saulo seguia para Damasco, teve tempo para pensar em Cristo e no seu evangelho. Via de novo, na sua mente, o rosto resplandecente de Estêvão, e ouvia as suas palavras; pensava na maneira doce e paciente com que os seguidores de Jesus haviam suportado os sofrimentos e as injustiças recebidos das suas mãos. No fundo do coração de Saulo levantava-se um sentimento que ele não conseguia sufocar: o de que o evangelho de Cristo era verdadeiro, e de que era perverso lutar contra ele. Mesmo assim, prosseguia, firme no seu propósito de destruir a Igreja de Cristo.
Por fim, aproximou-se de Damasco. De repente, em pleno meio-dia, uma luz fulgurou do céu, muito mais brilhante que o sol. Por um momento a luz cegou os olhos de Saulo, e veio tão subitamente sobre ele que, como um raio, o derrubou, e ele caiu por terra. No meio da luz, Saulo viu Alguém que nunca tinha visto antes. E uma voz estranha lhe chegou, dizendo: "Saulo, Saulo, por que lutas contra mim?"
E Saulo respondeu à voz: "Quem és tu, Senhor?" Então veio a resposta: "Eu sou Jesus, a quem tu procuras destruir!"
Então, tremendo de espanto e de temor, Saulo disse: "Senhor, que queres que eu faça?"
E o Senhor disse a Saulo: "Levanta-te, entra na cidade, e ali te será dito o que deves fazer."
Os que estavam com Saulo ficaram admirados, pois tinham visto uma luz e ouvido um som, mas não tinham contemplado rosto algum, nem ouvido palavra alguma; porque a visão de Cristo viera somente a Saulo. Levantaram-no do chão e perceberam que os seus olhos tinham ficado cegos pelo brilho da luz. Conduziram-no pela mão até a cidade e o levaram à casa de um homem chamado Judas. Ali Saulo permaneceu três dias, no mais profundo sofrimento de espírito e de corpo. Nada podia ver, e não comeu nem bebeu. Mas, na escuridão, orava a Deus e a Cristo de todo o coração.
Na cidade de Damasco havia um seguidor de Cristo chamado Ananias, homem bom, respeitado por todos os que o conheciam. A esse Ananias o Senhor falou, chamando-o pelo nome: "Ananias."
E Ananias respondeu: "Eis-me aqui, Senhor."
E o Senhor disse a Ananias: "Levanta-te, vai à rua chamada Direita e procura a casa de Judas; e nessa casa pergunta por um homem chamado Saulo, de Tarso. Esse homem, Saulo, está orando; e viu numa visão um homem chamado Ananias entrar no seu quarto e impor-lhe as mãos, para que recupere a vista."
Essa ordem do Senhor foi uma surpresa para Ananias. Ele respondeu ao Senhor: "Senhor, ouvi de muitos a respeito desse homem, Saulo; quanto mal ele fez a todo o teu povo em Jerusalém; e aqui ele tem ordem do sumo sacerdote para prender e levar todos os que invocam o teu nome! Devo eu ir visitar um homem como esse?"
Mas o Senhor disse a Ananias: "Vai, porque escolhi esse homem para levar o meu nome diante dos povos de todas as nações, e dos reis, e dos filhos de Israel. E eu lhe mostrarei quantas coisas ele deve sofrer pelo meu nome."
Então Ananias foi, como o Senhor lhe ordenara. Encontrou a casa e chegou até Saulo. Impôs as mãos sobre a cabeça de Saulo e disse: "Irmão Saulo, o Senhor Jesus, que te apareceu no caminho por onde vinhas, enviou-me para que recuperes a vista e sejas cheio do Espírito Santo. Agora, não esperes mais: levanta-te, sê batizado e invoca o nome de Jesus, que lavará os teus pecados."
Então caíram dos olhos de Saulo umas como escamas, e imediatamente a vista lhe voltou. Saulo foi batizado como quem cria em Cristo, deram-lhe alimento, e ele recobrou as forças do corpo e da alma. Saulo tinha partido para prender os discípulos de Cristo em Damasco; mas agora chegava ao meio deles, não mais como inimigo, e sim como irmão. E entrou nas sinagogas onde os judeus adoravam em Damasco, e começou a pregar-lhes Jesus, declarando que Jesus é o Cristo e o Filho de Deus. E todos os que o ouviam ficavam assombrados e diziam uns aos outros: "Não é este o mesmo homem que em Jerusalém espalhava a ruína entre os que criam nesse nome? E não veio ele a este lugar com a intenção de amarrar os que creem em Jesus e levá-los aos principais sacerdotes?"
E Saulo se tornava cada vez mais forte no espírito e nas palavras. Nenhum dos judeus de Damasco conseguia responder-lhe, quando ele demonstrava que Jesus é o Ungido, o Cristo. Mas não ficou muito tempo em Damasco. Depois de algum tempo deixou a cidade e retirou-se para um lugar tranquilo no deserto da Arábia, onde permaneceu um ano ou mais, meditando no evangelho e aprendendo do Senhor.
E de novo Saulo veio a Damasco, e de novo pregou Cristo e a salvação pelo seu nome, não somente para os judeus, mas para os gentios — todos os povos além dos judeus. Isso deixou os judeus de Damasco muito irados. Armaram um plano para matar Saulo, e vigiavam as portas da cidade dia e noite, esperando agarrá-lo quando saísse. Mas os amigos de Saulo, os discípulos de Jesus, levaram-no de noite a uma casa sobre a muralha, e o desceram num cesto até o chão, de modo que ele escapou dos seus inimigos e partiu em segurança.
Saulo viajou então de volta a Jerusalém. Havia partido dela três anos antes, inimigo implacável de Cristo; voltava agora seguidor de Cristo. Mas quando Saulo procurou unir-se aos crentes em Jerusalém, todos tinham medo dele; pois não podiam acreditar que aquele a quem tinham conhecido como o feroz destruidor da igreja fosse agora amigo de Jesus. Então Barnabé, o homem que dera todas as suas terras à igreja, como lemos na História Três, acreditou em Saulo ao ouvir a sua história, e o levou a Pedro, e contou como ele vira o Senhor no caminho, e com que ousadia pregara em Damasco no nome de Jesus. Então Pedro tomou a mão de Saulo e o recebeu como discípulo de Cristo. Por algumas semanas Saulo ficou em Jerusalém; e pregava nas sinagogas dos judeus, como Estêvão pregara antes, que Jesus é o Salvador não somente dos judeus, mas também dos gentios ("gentios" era o nome que os judeus davam aos povos de todas as outras nações, exceto a sua).
Quando Saulo pregava que os gentios podiam ser salvos em Jesus Cristo, os judeus se enfureciam, exatamente como o próprio Saulo se enfurecera, em outros tempos, ao ouvir Estêvão pregar esse mesmo evangelho. Não queriam ouvir Saulo, e procuravam matá-lo, como haviam matado Estêvão. Um dia, Saulo estava orando no Templo, e o Senhor veio a ele mais uma vez; e Saulo viu Jesus e ouviu a sua voz, que dizia: "Apressa-te e sai depressa de Jerusalém, porque o povo daqui não crerá nas tuas palavras a meu respeito."
Então Saulo disse ao Senhor: "Senhor, eles sabem que eu lançava na prisão e açoitava nas sinagogas os que criam em ti. E quando o teu servo Estêvão foi morto, eu estava presente, guardando as vestes dos que o apedrejavam."
E o Senhor disse a Saulo: "Sai deste lugar, porque eu te enviarei para longe, a pregar aos gentios."
Então Saulo compreendeu que a sua obra não era pregar o evangelho aos judeus, mas aos gentios, os povos das outras nações. Os discípulos em Jerusalém o ajudaram a escapar dos seus inimigos na cidade e o conduziram a um lugar chamado Cesareia, à beira-mar. Ali Saulo encontrou um navio que partia para Tarso, cidade da Ásia Menor. Tarso era a terra natal de Saulo e o lar da sua infância. Ele voltou a esse lugar, e naquela cidade ficou por alguns anos, a salvo dos judeus. Era fabricante de tendas, e trabalhava no seu ofício enquanto pregava o evangelho em Tarso. E podemos estar certos de que Saulo não se calaria a respeito das boas-novas do evangelho. Pregou em Tarso e em todos os lugares vizinhos.
Agora que Saulo, o inimigo, se tornara Saulo, o amigo do evangelho, todas as igrejas da Judeia, de Samaria e da Galileia tiveram descanso e paz. Os seguidores de Cristo podiam pregar sem medo; e o número dos que criam crescia rapidamente, porque o Senhor estava com eles.
Por toda a terra, desde a Galileia até o deserto do sul, havia reuniões dos que criam em Jesus como o Salvador; e os apóstolos Pedro e João iam entre eles, para ensinar-lhes o caminho da vida.