Quando Paulo e seus amigos chegaram a Jerusalém, reuniram-se com a igreja daquela cidade e entregaram o dinheiro que fora recolhido entre os gentios para ajudar os crentes judeus em Cristo que eram pobres. O apóstolo Tiago, o irmão do Senhor, que estava à frente da igreja em Jerusalém, deu a Paulo e a seus amigos calorosas boas-vindas, e louvou a Deus pela boa obra realizada entre os gentios.
Cerca de uma semana depois de Paulo ter chegado a Jerusalém, ele estava adorando no Templo quando alguns judeus das terras ao redor de Éfeso o viram. Imediatamente incitaram uma multidão e agarraram Paulo, gritando:
"Homens de Israel, socorro! Este é o homem que ensina a todos, por toda parte, contra o nosso povo, contra as nossas leis e contra este Templo. Além disso, trouxe gentios para dentro do Templo e assim tornou impura a casa santa!"
Eles haviam visto com Paulo, andando pela cidade, um de seus amigos de Éfeso que não era judeu, e espalharam o boato falso de que Paulo o havia levado para dentro do Templo. Quando os judeus levantaram esse clamor contra Paulo, toda a cidade se alvoroçou, e uma grande multidão se ajuntou ao redor dele. Arrastaram Paulo para fora do Templo, até o pátio exterior, e, em sua fúria, estavam prestes a matá-lo.
Mas na fortaleza ao norte do Templo havia uma guarnição de soldados romanos, mil homens sob o comando de um oficial que hoje chamaríamos de coronel, mas a quem chamavam "o comandante". Chegou a esse oficial a notícia de que toda Jerusalém estava em tumulto e de que uma turba enfurecida havia tomado o Templo. Ele convocou companhias de soldados com seus centuriões, ou capitães, e precipitou-se para o Templo, entrando no meio da multidão que espancava e pisoteava Paulo. O comandante tirou Paulo das mãos deles e, pensando que ele devia ter feito algo muito mau para provocar tal tumulto, ordenou que fosse preso com duas correntes.
Então perguntou quem era aquele homem e o que havia feito. Todos começaram a responder ao mesmo tempo, uns gritando uma coisa, outros outra; e, como o comandante nada conseguia entender em meio à confusão, ordenou aos soldados que o levassem para a fortaleza. A multidão avançou para agarrar Paulo e arrancá-lo dos soldados, mas eles o carregaram por entre a turba e pelos degraus de pedra que subiam à fortaleza, enquanto ao redor, ao pé da escadaria, a multidão de judeus furiosos gritava: "Fora com ele! Matai-o!"
Justamente quando chegavam à plataforma, à porta da fortaleza, Paulo, com toda a calma, falou ao comandante em sua própria língua, que era o grego. Disse: "Posso dizer-te uma palavra?" O oficial ficou surpreso e respondeu a Paulo: "Sabes grego? Não és tu aquele egípcio que, algum tempo atrás, se levantou contra as autoridades e levou para o deserto quatro mil homens assassinos?"
Mas Paulo disse: "Sou judeu, de Tarso, na Cilícia, cidadão de uma cidade que não é insignificante. Rogo-te que me permitas falar ao povo."
O comandante pensou que, se aquele homem falasse ao povo, talvez ele pudesse descobrir alguma coisa a seu respeito; e deu-lhe permissão. Então Paulo, de pé na escadaria, acenou com a mão à multidão, mostrando que desejava falar. Logo todos se aquietaram, pois queriam ouvir; e Paulo começou a falar ao povo. Mas não falou em grego, como havia falado ao comandante. Falou na língua hebraica, a língua deles, que amavam ouvir. E, quando o ouviram falar em hebraico, sua própria língua, ficaram ainda mais dispostos a escutá-lo. E foi isto o que Paulo disse:
"Irmãos e pais, ouvi as palavras que vos digo. Sou judeu, nascido em Tarso da Cilícia, mas criado nesta cidade, na lei de nossos pais; e era zeloso por Deus, como todos vós o sois neste dia. E fui inimigo implacável do caminho de Cristo, amarrando e lançando na prisão homens e mulheres que criam em Jesus. O próprio sumo sacerdote o sabe, e todo o conselho dos anciãos; pois me deram cartas para o nosso povo em Damasco. E parti em viagem para aquele lugar, a fim de trazer acorrentados, de Damasco a Jerusalém, os que seguiam Jesus, para castigá-los.
"E aconteceu que, indo eu de viagem e aproximando-me de Damasco, de repente resplandeceu do céu uma grande luz ao meu redor. E caí por terra, e ouvi uma voz que me dizia: 'Saulo, Saulo, por que lutas contra mim e me fazes mal?' E respondi: 'Quem és tu, Senhor?' E ele me disse: 'Eu sou Jesus de Nazaré, a quem tu procuras destruir!'
"Os que estavam comigo viram a luz, mas não ouviram a voz que me falava. E eu disse: 'Que farei, Senhor?' E o Senhor me disse: 'Levanta-te, entra em Damasco, e ali te será dito tudo o que te está ordenado fazer.'
"Quando me levantei, não podia ver, por causa do resplendor daquela luz, e fui levado pela mão dos que estavam comigo até Damasco. E um homem chamado Ananias, homem que adorava a Deus e guardava a lei, de quem todos os judeus da cidade falavam bem, veio ter comigo e, de pé ao meu lado, disse: 'Irmão Saulo, recobra a vista.'
"E naquela mesma hora ergui os olhos e o vi. E ele me disse: 'O Deus de nossos pais te escolheu para conheceres a sua vontade, e veres o Santo, e ouvires a sua voz. Pois falarás em seu nome a todos os homens, contando-lhes o que viste e ouviste.'
"E depois, quando voltei a Jerusalém e estava orando no Templo, vi o Senhor outra vez, e ele me falou: 'Vai, porque eu te enviarei para longe, aos gentios.'"
Os judeus ouviram Paulo em silêncio até que ele pronunciou aquela palavra — "gentios" —, que despertou toda a sua ira. Começaram a gritar: "Tira da terra tal homem! Não convém que ele viva!"
E, enquanto arrojavam as vestes e lançavam pó ao ar em sua fúria, o comandante ordenou que Paulo fosse levado para dentro da fortaleza e açoitado com varas até que confessasse que coisa terrível havia feito para provocar tamanha ira. Pois o comandante, não conhecendo a língua dos judeus, não havia entendido o que Paulo dissera.
Levaram Paulo para a fortaleza e já o amarravam para açoitá-lo, quando Paulo disse ao centurião que estava ali: "Tendes o direito de açoitar um cidadão romano que não foi julgado diante de um juiz?"
Quando o centurião ouviu isso, foi às pressas ao comandante e lhe disse: "Cuidado com o que fazes a esse homem, pois ele é cidadão romano!"
Então o comandante veio e disse a Paulo: "Dize-me, és cidadão romano?"
E Paulo respondeu: "Sim, sou."
O comandante disse: "Eu comprei este direito de cidadania por uma grande soma de dinheiro."
E Paulo lhe disse: "Mas eu sou cidadão de nascimento."
Quando os que iam açoitar Paulo souberam que ele era cidadão romano, afastaram-se dele às pressas, e o comandante ficou com medo, porque havia acorrentado Paulo; pois ninguém podia pôr correntes num cidadão romano antes que fosse julgado diante de um juiz romano.
Levaram Paulo para dentro da fortaleza, mas tiveram o cuidado de não lhe fazer mal algum.