Quando Festo veio governar a terra da Judeia, no lugar de Félix, que havia mantido Paulo na prisão por tanto tempo, subiu a Jerusalém para visitar aquela cidade. Ali os principais sacerdotes e os homens mais importantes lhe falaram contra Paulo, e pediram que ele fosse enviado a Jerusalém para ser julgado. O plano deles era matar Paulo no caminho. Mas Festo lhes disse que Paulo ficaria guardado em Cesareia, e que ele mesmo iria logo para lá.
"Que alguns dos vossos líderes desçam comigo", disse Festo, "e apresentem as vossas acusações contra ele, se tiverdes alguma."
Quando Festo desceu a Cesareia, convocou a todos, sentou-se no tribunal e mandou trazer Paulo. Então os judeus disseram coisas más a respeito de Paulo, declarando que ele havia agido com maldade. Mas não podiam provar nenhuma das coisas de que o acusavam. E Paulo disse: "Nenhum mal fiz contra a lei dos judeus, nem contra o Templo, nem contra a autoridade de César, o imperador."
Festo queria agradar aos judeus, pois não conhecia o seu propósito secreto de matar Paulo. E disse: "Queres subir a Jerusalém e ser julgado lá, diante de mim, sobre estas acusações?"
Mas Paulo disse: "Estou perante o tribunal romano, onde devo ser julgado. Nenhum mal fiz aos judeus, como tu bem sabes, e ninguém me entregará nas mãos deles. Apelo para César, o imperador, em Roma."
Era lei em todas as terras romanas que qualquer cidadão de Roma, como Paulo era, podia pedir para ser julgado em Roma, diante de César, o imperador. Quando Festo ouviu as palavras de Paulo, disse: "Apelas para César? Pois a César irás."
Assim, Paulo foi levado de volta à prisão de Cesareia, para ser enviado a Roma quando chegasse a sua hora. Poucos dias depois, um governante judeu chamado Agripa, com sua irmã Berenice, veio visitar Festo. Ele era chamado "rei Agripa", e governava uma parte da terra a leste do rio Jordão. Enquanto Agripa e Berenice estavam em Cesareia, Festo lhes disse: "Há aqui certo homem, deixado prisioneiro por Félix, a respeito de quem os principais sacerdotes e os anciãos dos judeus, quando estive em Jerusalém, pediram que eu desse ordens para matá-lo, ou que o entregasse nas mãos deles. Respondi-lhes que os romanos nunca condenam um homem sem que ele esteja face a face com seus acusadores e possa responder às acusações. Quando desceram a este lugar e o homem foi trazido perante eles, as acusações não eram os atos perversos que eu esperava ouvir; tinham, porém, certas questões sobre os seus modos de adoração e sobre um tal Jesus, que morreu, mas que Paulo afirmava estar vivo. Como eu não podia entender essas questões, perguntei a Paulo se queria subir a Jerusalém e ser julgado lá. Mas Paulo apelou para César, e eu o mantenho preso, para enviá-lo ao imperador, em Roma."
"Eu gostaria", disse Agripa, "de ouvir eu mesmo esse homem."
"Amanhã", disse Festo, "tu o ouvirás."
Assim, no dia seguinte, Agripa e sua irmã Berenice, e Festo, com os principais da cidade e os oficiais do exército, entraram com grande pompa na sala de audiências, e Paulo foi trazido perante eles, acorrentado a um soldado romano. E, depois de algumas palavras de Festo, Agripa disse a Paulo: "Podes agora falar em tua defesa."
Então Paulo falou com palavras como estas:
"Tenho-me por feliz, rei Agripa, por poder responder diante de ti a todas as coisas de que os judeus me acusam, porque estou certo de que conheces todos os costumes judaicos e as questões acerca da lei. Rogo-te, pois, que me ouças. Todos os judeus conhecem a minha maneira de viver desde a mocidade, pois vivi entre eles; e, se dissessem a verdade, diriam que fui dos que guardavam com mais rigor as leis do nosso povo. E agora estou aqui para ser julgado por causa da promessa que Deus fez a nossos pais; a promessa que as nossas doze tribos, servindo a Deus dia e noite, esperam alcançar. E é por causa dessa esperança, ó rei, que os judeus me acusam de fazer o mal; porque creio que Jesus Cristo ressuscitou dentre os mortos para ser o Rei de Israel. Por que haveria de parecer-te coisa incrível que Deus ressuscite os mortos?
"Em outros tempos, eu realmente pensava comigo mesmo que devia fazer muitas coisas contra o nome de Jesus de Nazaré. E assim fiz em Jerusalém; pois encerrei em prisões muitos homens e mulheres bons, e, quando eram condenados à morte, dava o meu voto contra eles. Fiz com que fossem açoitados, e procurava obrigá-los a amaldiçoar o nome de Jesus; e, enfurecido em extremo contra eles, perseguia-os até em cidades distantes.
"E, indo eu a Damasco com cartas dos principais sacerdotes, ao meio-dia, ó rei, vi no caminho uma luz do céu, mais resplandecente que o sol, brilhando ao redor de mim e dos que iam comigo. E, caindo nós todos por terra, ouvi uma voz que me dizia: 'Saulo, Saulo, por que lutas contra mim?'
"E eu disse: 'Quem és tu, Senhor?'
"E o Senhor disse: 'Eu sou Jesus, a quem tu procuras destruir. Mas levanta-te e põe-te em pé, porque me mostrei a ti para fazer de ti meu servo e meu mensageiro, para contares o que viste e o que ainda te mostrarei. Eu te livrarei do povo judeu e dos gentios, aos quais agora te envio, para lhes abrires os olhos e os converteres das trevas para a luz, e do poder de Satanás, o maligno, para Deus, a fim de que os seus pecados sejam perdoados, e recebam herança entre os que são santificados pela fé em mim.'
"Ó rei Agripa, não fui desobediente à voz do céu; mas, primeiro em Damasco, depois em Jerusalém e por toda a terra da Judeia, e também entre os gentios, tenho falado, exortando os homens a se converterem do pecado a Deus e a mostrarem obras de justiça. É por esta causa que os judeus me prenderam no Templo e tentaram matar-me. Tendo, porém, alcançado o socorro de Deus, permaneço até o dia de hoje, falando a pequenos e grandes, sem dizer nada além do que está na lei de Moisés e nos profetas: que o Cristo devia sofrer e morrer, e que, sendo o primeiro a ressuscitar dentre os mortos, havia de anunciar a luz ao nosso povo e aos gentios."
Enquanto Paulo falava, Festo disse em alta voz: "Estás louco, Paulo! As muitas letras te levaram à loucura!"
Pois Festo, sendo romano, nada sabia de Jesus nem das verdades que Paulo falava.
Mas Paulo lhe disse: "Não estou louco, excelentíssimo Festo. Digo apenas palavras sensatas e verdadeiras. O rei conhece estas coisas, e a ele falo com liberdade. Nada disto lhe é oculto, pois estas coisas não se passaram em segredo. Rei Agripa, crês nos profetas? Eu sei que crês."
E Agripa disse a Paulo: "Por pouco não me persuades a tornar-me cristão!"
E Paulo disse: "Prouvera a Deus que, por pouco ou por muito, não somente tu, mas também todos os que hoje me ouvem, se tornassem tais qual eu sou — exceto estas correntes!"
Depois dessas palavras, o rei Agripa, e Berenice, e Festo, o governador, e os que ali estavam, retiraram-se à parte, e diziam uns aos outros: "Este homem nada fez que mereça morte ou prisão."
E Agripa disse a Festo: "Este homem poderia ter sido posto em liberdade, se não tivesse apelado para César."