A história que agora vamos ler está contada no livro de Judite, um dos livros chamados deuterocanônicos, que aparecem em algumas Bíblias e não em outras. Eis como o livro a conta.
Havia um grande rei chamado Nabucodonosor, que reinava sobre os assírios em Nínive. Ele fez guerra contra Arfaxad, rei dos medos, e mandou pedir às terras do ocidente que enviassem homens para ajudá-lo na guerra. Mas aquelas terras não quiseram vir, porque não o temiam; e o rei jurou vingar-se de todas elas. Quando venceu os medos, enviou Holofernes, o chefe supremo do seu exército, com cento e vinte mil homens de infantaria e doze mil cavaleiros, para castigar todas as terras que lhe haviam desobedecido. E Holofernes passou sobre os países como uma tempestade. Derrubou as suas cidades e destruiu os lugares dos seus deuses, para que todas as nações adorassem somente a Nabucodonosor e o invocassem como um deus.
Ora, os filhos de Israel haviam voltado há pouco do cativeiro, e tremiam por Jerusalém e pelo Templo do Senhor. Joaquim, o sumo sacerdote em Jerusalém, mandou avisar as aldeias das montanhas que guardassem os desfiladeiros, porque por eles se entrava na terra. E a pequena cidade de Betúlia ficava no alto de um desses caminhos estreitos. E em toda parte o povo de Israel clamava a Deus com grande força, e jejuava, e se vestia de pano de saco.
No acampamento de Holofernes havia um chefe dos amonitas chamado Aquior; e, quando Holofernes perguntou que povo era aquele das montanhas, Aquior lhe contou a história de Israel, e terminou com estas palavras: "Enquanto eles não pecarem contra o seu Deus, ninguém poderá vencê-los, porque o seu Deus os defende. Mas, se tiverem pecado, então subiremos e os venceremos." Holofernes encheu-se de ira e disse: "Que deus existe, senão Nabucodonosor?" E mandou que Aquior fosse amarrado e deixado ao pé do monte de Betúlia, para que perecesse junto com o povo que havia louvado. E os homens de Betúlia desceram, soltaram-no e o levaram para dentro da cidade.
Então Holofernes pôs cerco a Betúlia. E, por conselho dos chefes das terras vizinhas, não atacou as muralhas, mas apoderou-se da fonte de onde a cidade tirava a sua água, e pôs guardas em todos os poços; porque disse: "Cairão sem um só golpe; a sede os destruirá." Durante trinta e quatro dias a cidade ficou sitiada, até que todas as vasilhas se esvaziaram e a água passou a ser distribuída por medida, e as crianças desfaleciam pelas ruas. Então todo o povo se levantou contra Ozias, o chefe da cidade, gritando: "Entrega a cidade! É melhor servirmos aos assírios e vivermos, do que ver os nossos pequeninos morrerem diante dos nossos olhos." E Ozias respondeu: "Aguentemos ainda cinco dias; e, se dentro de cinco dias não vier socorro algum, farei o que dizeis."
Ora, havia em Betúlia uma viúva chamada Judite. Seu marido, Manassés, havia morrido de insolação nos dias da colheita da cevada, e por três anos e quatro meses ela o havia chorado, vivendo recolhida, em jejum e oração, numa tenda armada no terraço da sua casa. Era muito bela, e era rica; e ninguém dizia dela uma só palavra má, porque temia grandemente a Deus.
Quando Judite soube o que o povo tinha dito, mandou chamar os anciãos da cidade e lhes disse: "Quem sois vós, para pordes Deus à prova neste dia? Marcastes um prazo de cinco dias para o Senhor! Ele não é um homem, para ser ameaçado. Se não lhe agradar salvar-nos dentro de cinco dias, ele pode salvar-nos nos dias que quiser; ou pode deixar-nos perecer. Antes clamemos a ele e esperemos a sua salvação. Porque, se a nossa cidade for tomada, toda a terra cairá com ela, e também o santo Templo; e Deus nos pedirá contas disso. E agora, ouvi-me: vou fazer uma obra que será contada entre os filhos do nosso povo por todas as gerações. Esta noite sairei pela porta da cidade com a minha criada; e, antes que se passem os cinco dias, o Senhor livrará Israel pela minha mão. Mas não me pergunteis o que vou fazer; não o direi enquanto não estiver feito."
Então Judite prostrou-se com o rosto em terra, com cinza sobre a cabeça, na hora em que se oferecia o incenso da tarde no Templo de Jerusalém, e orou: "Senhor, Deus do meu pai Simeão, olha para a soberba dos assírios. Quebra a sua força pela mão de uma mulher. Dá-me palavras que enganem os seus ouvidos, e torna firme a minha mão para esta obra."
Depois levantou-se da oração e tirou as vestes de viúva. Lavou-se, ungiu-se com perfume precioso, trançou os cabelos, vestiu as suas roupas de festa, pôs braceletes, colares, anéis e brincos, e fez-se belíssima, para enganar os olhos de todos os que a vissem. Deu à criada um saco com pão, grãos torrados e figos, e vinho e azeite, para não ter de comer a comida dos pagãos. E as duas mulheres saíram pela porta de Betúlia, de noite; e Ozias e os anciãos ficaram olhando, admirados da sua beleza, e disseram: "Que o Deus de nossos pais te dê graça." E ela desceu a montanha e entrou no vale.
As sentinelas dos assírios a detiveram e perguntaram: "Quem és tu?" E ela disse: "Sou uma filha dos hebreus, e fujo do meio deles, porque estão a ponto de ser entregues nas vossas mãos. Levai-me a Holofernes, e eu lhe mostrarei um caminho para tomar toda a região das montanhas sem perder um só homem." Os soldados maravilharam-se da sua beleza, e escolheram cem homens, que a conduziram à tenda de Holofernes.
Holofernes descansava sob um dossel tecido de púrpura e ouro, ornado de esmeraldas e pedras preciosas. Judite inclinou-se até o chão diante dele; e ele disse: "Tem ânimo, mulher; nunca fiz mal a quem quis servir ao rei Nabucodonosor. Por que vieste?" E Judite disse palavras que eram verdadeiras de um modo que Holofernes não entendia: "A nossa nação não pode ser castigada, nem a espada pode prevalecer contra ela, a não ser que peque contra o seu Deus. Mas agora a comida e a água acabaram em Betúlia, e eles resolveram comer os alimentos sagrados, separados para os sacerdotes, nos quais ao povo não é lícito nem tocar. No dia em que fizerem isso, serão entregues na tua mão. Por isso fugi; e cada noite sairei ao vale para orar, e Deus me dirá quando eles tiverem cometido o seu pecado; então eu te guiarei pelo meio da terra, até Jerusalém." Aquelas palavras agradaram a Holofernes e a todos os seus servos, e eles se admiravam, dizendo: "Não há mulher igual a esta de uma ponta a outra da terra, tão bela de rosto e tão sábia de palavras."
Judite ficou, pois, no acampamento; mas comia somente da comida que havia trazido. E cada noite saía ao vale para lavar-se e orar; e os guardas se acostumaram a vê-la passar.
No quarto dia Holofernes deu um banquete, e mandou Bagoas, o guarda da sua tenda, convidar Judite, dizendo: "Que essa bela mulher venha comer e beber conosco." E Judite respondeu: "Quem sou eu, para recusar ao meu senhor?" E veio com todos os seus adornos; e o coração de Holofernes ficou arrebatado por ela, e naquela noite ele bebeu muito mais vinho do que jamais bebera em um só dia, em toda a sua vida.
Quando se fez tarde, os servos retiraram-se, Bagoas fechou a tenda, e Judite ficou sozinha com Holofernes, que jazia caído sobre o leito, afogado em vinho. Sua criada esperava do lado de fora, porque todos pensavam que Judite sairia para as suas orações, como nas outras noites. Então Judite, de pé junto ao leito, orou em seu coração: "Senhor, Deus de todo poder, olha nesta hora para a obra das minhas mãos, para a exaltação de Jerusalém. Agora é o tempo de socorrer a tua herança." E foi até a coluna do leito, à cabeceira de Holofernes, e dela tirou a espada dele mesmo; e segurou os cabelos da cabeça dele e disse: "Fortalece-me, Senhor, Deus de Israel, neste dia!" E golpeou-lhe o pescoço duas vezes, com toda a sua força, e cortou-lhe a cabeça. Depois rolou o corpo para fora do leito e arrancou o dossel das colunas; e entregou a cabeça de Holofernes à criada, que a pôs no saco das provisões. E as duas saíram juntas, como costumavam sair para a oração; e atravessaram o acampamento, cruzaram o vale e subiram a montanha até as portas de Betúlia.
E de longe Judite gritou às sentinelas: "Abri, abri a porta! Deus, o nosso Deus, está conosco!" E todo o povo acorreu, do menor ao maior, porque já mal esperavam tornar a vê-la. E ela tirou a cabeça do saco e a mostrou, dizendo: "Eis a cabeça de Holofernes, o chefe supremo do exército de Assur! O Senhor o feriu pela mão de uma mulher. E, tão certo como vive o Senhor, o meu rosto o enganou para a sua perdição, mas ele não cometeu pecado algum comigo, para me manchar ou me envergonhar." E todo o povo se encheu de assombro, e se inclinou, e adorou a Deus; e Ozias lhe disse: "Bendita és tu, ó filha, mais que todas as mulheres da terra." E Aquior, o amonita, quando viu a cabeça, caiu desmaiado com o rosto em terra; mas, quando o levantaram, creu em Deus de todo o coração, e desde aquele dia ficou unido ao povo de Israel.
Ao romper da manhã, penduraram a cabeça de Holofernes na muralha, e cada homem tomou as suas armas, e saíram em companhias, descendo a montanha, como quem vai atacar. Os assírios correram a acordar o seu comandante; e Bagoas entrou na tenda, e achou o corpo caído, e a cabeça já não estava ali; e gritou em alta voz: "Uma só mulher hebreia cobriu de vergonha a casa do rei Nabucodonosor!" Então o pavor caiu sobre todo o exército, e fugiram, cada um por seu lado, pela planície e pelos montes; e os homens de Israel os perseguiram, e as cidades vizinhas se juntaram à perseguição, e o despojo do acampamento foi tão grande que o povo levou trinta dias para recolhê-lo. E deram a Judite a tenda de Holofernes, com toda a sua prata e os seus bens; e ela depois os dedicou como oferta ao Senhor.
E Joaquim, o sumo sacerdote, veio de Jerusalém com os anciãos para vê-la, e a abençoou, dizendo: "Tu és a glória de Jerusalém, tu és a grande alegria de Israel, tu és a honra do nosso povo!" E Judite entoou um cântico de ação de graças, e todo o povo cantava com ela: "Cantai ao meu Deus com tamborins; cantai ao meu Senhor com címbalos. O assírio desceu das montanhas do norte com as suas dezenas de milhares; mas o Senhor Todo-Poderoso o desfez pela mão de uma mulher. Ai das nações que se levantarem contra o meu povo!" E subiram a Jerusalém e adoraram, e a festa durou três meses.
Depois Judite voltou para Betúlia. Muitos a desejaram por esposa, mas ela não se casou com homem algum em todos os dias da sua vida. Deu liberdade à sua criada; e envelheceu na casa do seu marido, honrada por todos, e morreu com cento e cinco anos. E ninguém mais atemorizou os filhos de Israel nos dias de Judite, nem por muito tempo depois da sua morte.