Em janeiro de 1896, no Cairo, um estudioso alemão comprou um pequeno livro de papiro que fora encontrado, envolto em penas, num nicho de muro de um antigo cemitério cristão de Akhmim, no Egito. Levado para Berlim, o códice revelou conter, em copta, o único exemplar quase completo do Evangelho de Maria — o único evangelho antigo que leva o nome de uma mulher. O livrinho, copiado no século V a partir de uma obra composta no século II, chegou ferido pelo tempo: faltam as seis primeiras páginas e quatro páginas do meio. Dois minúsculos fragmentos em grego, guardados em Manchester e em Oxford, confirmam o texto. Nele, depois que o Salvador parte, é Maria Madalena quem levanta os discípulos abatidos e lhes confia o que viu — e por isso é confrontada por Pedro. As igrejas nunca incluíram esta obra no cânon. Eis o texto que sobreviveu, traduzido na íntegra; os colchetes [ ] marcam as falhas do manuscrito.
As páginas 1 a 6 perderam-se. O texto sobrevivente começa no meio de uma conversa do Salvador ressuscitado com os discípulos, quando alguém pergunta sobre o destino da matéria.
[Página 7] "...Então a [matéria] será [destruída], ou não?" O Salvador disse: "Toda natureza, toda forma, toda criatura existe uma na outra e uma com a outra; mas dissolver-se-ão de novo em suas próprias raízes, porque a natureza da matéria se dissolve naquilo que pertence somente à sua natureza. Quem tem ouvidos para ouvir, ouça!"
Pedro lhe disse: "Já que nos explicaste todas as coisas, dize-nos mais uma: qual é o pecado do mundo?" O Salvador disse: "O pecado não existe; sois vós que fazeis o pecado, quando agis segundo a natureza do adultério, à qual se dá o nome de 'pecado'. Por isso o Bem veio ao vosso meio, até as coisas de toda natureza, para restaurá-la dentro da sua raiz." E prosseguiu, dizendo: "Por isso adoeceis e morreis: porque [amais [8] o que vos engana. Quem] puder compreender, compreenda!
"A matéria [gerou] uma paixão que não tem imagem, porque procede do que é contrário à natureza; e então a confusão se levanta no corpo inteiro. Por isso vos disse: tende ânimo no coração; e, se estiverdes desanimados, animai-vos diante das várias formas da natureza. Quem tem ouvidos para ouvir, ouça!"
Tendo dito estas coisas, o Bendito saudou a todos, dizendo: "A paz esteja convosco! Recebei a minha paz. Guardai-vos, para que ninguém vos desencaminhe dizendo: 'Ei-lo aqui!' ou 'Ei-lo ali!' — porque o Filho do Homem existe dentro de vós. Segui-o! Os que o buscarem o encontrarão. Ide, pois, e pregai o evangelho do Reino. Não [9] estabeleçais nenhuma regra além daquela que vos dei, nem deis lei como o legislador, para que não sejais presos por ela." Dito isso, partiu.
Eles, porém, ficaram tristes, e choravam amargamente, dizendo: "Como iremos aos gentios pregar o evangelho do Reino do Filho do Homem? Se a ele não pouparam, como pouparão a nós?"
Então Maria levantou-se, saudou a todos e disse aos seus irmãos: "Não choreis, não vos entristeçais, nem deixeis o coração dividido; porque a graça dele estará convosco, inteira, e vos protegerá. Antes, louvemos a sua grandeza, porque ele nos preparou, e nos fez Humanos." Dizendo isso, Maria voltou os corações deles para o Bem, e começaram a conversar sobre as palavras do [Salvador].
[10] Pedro disse a Maria: "Irmã, sabemos que o Salvador te amava mais do que às outras mulheres. Dize-nos as palavras do Salvador de que te lembras — as que tu conheces e nós não, as que nunca ouvimos." Maria respondeu: "O que vos está oculto, eu vos anunciarei." E começou a dizer-lhes estas palavras: "Eu", disse ela, "eu vi o Senhor numa visão, e disse-lhe: 'Senhor, eu te vi hoje numa visão.' Ele me respondeu: 'Bem-aventurada és tu, porque não vacilaste ao ver-me. Pois onde está a mente, ali está o tesouro.' Eu lhe disse: 'Senhor, aquele que vê a visão — vê com a alma, ou com o espírito?' O Salvador respondeu: 'Não se vê com a alma, nem com o espírito; mas a mente, que existe entre os dois, é que vê a visão, e ela [...]'"
As páginas 11 a 14 perderam-se. Quando o texto recomeça, Maria está contando a subida da alma, que atravessa os poderes que tentam retê-la; a alma já respondeu ao primeiro deles.
[15] "E o Desejo disse: 'Não te vi descer; mas agora te vejo subir. Por que mentes, se me pertences?' A alma respondeu: 'Eu te vi; tu, porém, não me viste, nem me reconheceste. Eu era para ti apenas uma veste, e não me reconheceste.' Dito isso, retirou-se com grande alegria.
"De novo, chegou ao terceiro poder, chamado 'Ignorância'. [Este] interrogou a alma, [dizendo]: 'Aonde vais? Na maldade foste presa; e, estando presa, não julgues!' E a alma disse: 'Por que me julgas, se eu não julguei? Fui presa, embora não tenha prendido. Não me reconheceram; mas eu reconheci que todas as coisas se dissolverão — tanto as coisas da [terra] [16] como as do [céu].'
"Tendo vencido o terceiro poder, a alma subiu, e viu o quarto poder, que tinha sete formas. A primeira forma é a Treva; a segunda, o Desejo; a terceira, a Ignorância; a quarta, o Zelo da Morte; a quinta, o Reino da Carne; a sexta, a insensata 'Sabedoria' da Carne; a sétima, a 'Sabedoria' da Ira. São estes os sete poderes da Ira.
"Eles perguntaram à alma: 'De onde vens, assassina, e para onde vais, conquistadora do espaço?' A alma respondeu: 'O que me prendia foi morto; o que me rodeava foi vencido; o meu desejo se acabou, e a ignorância morreu. Num [mundo] fui liberta [17] de um mundo, e numa forma, de uma forma que é do alto; e da corrente do esquecimento, que só existe por um tempo. De agora em diante alcançarei, em silêncio, o repouso do tempo, da estação, da era.'"
Tendo dito estas coisas, Maria calou-se, pois fora até ali que o Salvador falara com ela.
André, porém, respondeu e disse aos irmãos: "Dizei o que quiserdes sobre o que ela falou; eu, de minha parte, não creio que o Salvador tenha dito estas coisas. Estes ensinamentos parecem ideias diferentes." Pedro respondeu com as mesmas inquietações, e perguntou-lhes a respeito do Salvador: "Teria ele falado em segredo com uma mulher, sem que soubéssemos, e não abertamente conosco? Devemos todos voltar-nos e ouvi-la? Teria ele a preferido a nós?"
[18] Então Maria chorou, e disse a Pedro: "Meu irmão Pedro, que pensas tu? Pensas que inventei isto sozinha, no meu coração, ou que minto a respeito do Salvador?" Levi respondeu a Pedro: "Pedro, tu sempre foste irado. Agora te vejo discutindo com esta mulher como fazem os adversários. Se o Salvador a fez digna, quem és tu para rejeitá-la? Certamente o Salvador a conhece muito bem: por isso a amou mais do que a nós. Antes, envergonhemo-nos; revistamo-nos da Humanidade perfeita, e a adquiramos para nós, como ele nos ordenou; e preguemos o evangelho, sem estabelecer outra regra nem outra lei além daquela que o Salvador disse."
Quando [19] [Levi disse estas coisas], saíram para ensinar e pregar.
O Evangelho segundo Maria.