Nos dias em que o apóstolo Paulo viajava de cidade em cidade pregando o evangelho, contava-se entre as igrejas a história de uma jovem chamada Tecla. Ela está escrita num livro antigo chamado Atos de Paulo e Tecla, que não faz parte da Bíblia; mas, por centenas de anos, os cristãos gostaram de contá-la. Esta é a história.
Paulo chegou à cidade de Icônio, e com ele vinham dois homens, Demas e Hermógenes, que se faziam de amigos, mas não tinham amor verdadeiro no coração. Um bom homem da cidade, chamado Onesíforo, saiu ao encontro de Paulo, pois lhe haviam descrito como ele era: um homem baixo de estatura, calvo, de pernas um pouco tortas, de sobrancelhas unidas e nariz um tanto comprido; forte de corpo e cheio de graça — pois às vezes parecia não mais que um homem, e às vezes tinha o rosto de um anjo.
Onesíforo levou Paulo à sua casa; e ali Paulo ensinava a palavra de Deus, falando da vida pura e da ressurreição, e dizendo: "Bem-aventurados os limpos de coração, porque verão a Deus; bem-aventurados os que se guardam para Deus, porque serão chamados o seu templo."
Ora, na casa vizinha morava uma jovem chamada Tecla, filha de Teocleia; e estava prometida em casamento a um moço da cidade chamado Tamíris. Sentada a uma janela da sua casa, Tecla ouvia a voz de Paulo, e escutava dia e noite, e não queria sair da janela. Ainda nem tinha visto o rosto de Paulo; mas o seu coração estava preso às palavras dele.
Sua mãe mandou chamar Tamíris; e ele veio e suplicou: "Tecla, minha noiva prometida, por que ficas sentada assim?" Mas ela não lhe respondeu palavra alguma; apenas continuava escutando a voz. E sua mãe e Tamíris choraram.
Então Tamíris, instigado por Demas e Hermógenes, foi ao governador e acusou Paulo; e Paulo foi amarrado e posto na prisão. Mas, de noite, Tecla tirou as suas pulseiras e as deu ao porteiro da sua casa, e deu o seu espelho de prata ao carcereiro; e assim chegou até Paulo, na prisão. Ali sentou-se aos seus pés, beijou as suas correntes e ouviu as grandes coisas de Deus.
Pela manhã, encontraram-na ali; e Paulo foi levado diante do governador. O governador mandou açoitar Paulo e expulsá-lo da cidade; mas a Tecla condenou a ser queimada — e foi a sua própria mãe quem gritou, na sua ira: "Queimai a sem-lei, para que todas as mulheres aprendam a temer!"
No teatro empilharam a lenha bem alta. Tecla procurava Paulo com os olhos, como o cordeiro no deserto procura o pastor; e viu o Senhor sentado no meio da multidão, na figura de Paulo, e o seu coração se encheu de coragem. Puseram-na sobre a lenha, e ela fez o sinal da cruz. O fogo foi aceso e subiu alto; mas não a tocou. E Deus mandou do céu uma grande tempestade de chuva e granizo, de modo que o fogo se apagou; e Tecla saiu livre.
Ora, Paulo, com Onesíforo e a sua família, estava jejuando e orando num sepulcro aberto à beira do caminho; e ali Tecla o encontrou, e houve grande alegria. Tecla disse: "Cortarei os meus cabelos e te seguirei aonde quer que fores." Mas Paulo respondeu: "Os tempos são maus, e tu és formosa; temo que te sobrevenha uma prova pior do que a primeira. Tem paciência, Tecla, e receberás a água do batismo."
Ela foi, pois, com ele para Antioquia. Mas, quando entravam na cidade, um homem poderoso chamado Alexandre viu Tecla e a agarrou em plena rua. Ela gritou: "Não toques numa estrangeira! Não faças mal à serva de Deus!" — e rasgou-lhe o manto e derrubou-lhe a coroa da cabeça. Então Alexandre, envergonhado e furioso, arrastou-a diante do governador; e ela foi condenada às feras. As mulheres da cidade gritaram das suas bancadas: "Sentença má! Sentença injusta!" E uma grande senhora chamada Trifena, uma rainha cuja filha jovem havia morrido, levou Tecla para a sua casa, para guardá-la até o dia dos jogos, e a amou como filha; e, a pedido de Trifena, Tecla orou pela filha que ela tinha perdido.
Quando chegou o dia dos jogos, puseram ao lado de Tecla uma leoa feroz; mas a leoa apenas lhe lambia os pés, e o povo se admirava. Então soltaram as feras. A leoa correu para Tecla e deitou-se aos seus pés, guardando-a. Um urso lançou-se sobre ela — e a leoa despedaçou o urso. Um grande leão, adestrado para lutar contra homens, lançou-se sobre ela — e a leoa lutou com ele até que os dois caíram mortos juntos. E as mulheres nas bancadas prantearam em voz alta a leoa que morrera defendendo-a.
Depois soltaram muitas outras feras, e Tecla ficou de pé, com as mãos estendidas, orando. E, erguendo os olhos, viu um grande tanque de água, onde se guardavam animais ferozes do mar; e disse: "Agora chegou a hora de eu me lavar." E lançou-se na água, clamando: "Em nome de Jesus Cristo, eu me batizo neste meu último dia!" Uma luz como relâmpago brilhou ao redor dela, e as criaturas da água boiaram sem lhe fazer mal; e uma nuvem de fogo a envolveu, de modo que nenhuma fera podia tocá-la.
As mulheres da cidade estavam agora de todo o coração do seu lado, e lançavam flores e perfumes na arena, até que as feras ficaram paradas, como adormecidas. Por fim, Alexandre mandou amarrá-la entre dois touros bravos; mas a chama que lhes puseram queimou as cordas, e Tecla ficou de pé, sem ferimento algum.
Então Trifena, que assistia junto à arena, desmaiou, e todos gritaram: "A rainha morreu!" E Alexandre teve medo, pois Trifena era parenta de César; e suplicou ao governador: "Tem misericórdia de mim e da cidade, e solta a mulher!" O governador chamou Tecla e perguntou: "Quem és tu, que nenhuma das feras te tocou?"
Ela respondeu: "Sou serva do Deus vivo; e creio no seu Filho, Jesus Cristo. Por isso nenhuma das feras pôde tocar-me."
Então o governador mandou trazer vestes e disse: "Eu vos devolvo Tecla, a serva de Deus." E todas as mulheres ergueram a voz juntas e louvaram a Deus a uma só voz, de modo que a cidade inteira estremeceu com o som.
Trifena, que havia voltado a si, recebeu-a com alegria, dizendo: "Agora creio que os mortos ressuscitam! Agora creio que a minha filha vive!" E Tecla ficou na sua casa alguns dias, ensinando a palavra de Deus; e Trifena creu, e com ela a sua casa.
Mas Tecla tinha saudade de Paulo. Costurou o seu manto à maneira de uma capa de viagem, como as que os homens usam, e foi à cidade de Mirra, e encontrou Paulo ali, e contou-lhe tudo o que havia acontecido; e disse: "Recebi o lavar do batismo; pois aquele que trabalhou contigo no evangelho trabalhou também em mim." E Paulo lhe disse: "Vai, e ensina a palavra de Deus." E o ouro que Trifena lhe havia dado, Tecla o entregou para o cuidado dos pobres.
Foi primeiro a Icônio, a sua própria cidade. Tamíris havia morrido; mas a sua mãe vivia, e Tecla pôs-se diante dela e disse: "Teocleia, minha mãe, crê: o Senhor vive no céu; e tudo o que eu sou, foi ele quem me fez." Depois partiu para a cidade de Selêucia; e ali ensinou a palavra de Deus por muitos e longos anos, e trouxe muitas almas para a luz, até que enfim, em grande velhice, adormeceu em paz.
Assim termina a velha história. As igrejas não a colocaram na Bíblia; mas em todas as terras os cristãos se lembraram de Tecla, a jovem de Icônio que ouviu a palavra à sua janela e a seguiu por toda a vida.