Quando Esaú percebeu que havia perdido o seu direito de primogenitura e a sua bênção, ficou muito irado contra o seu irmão Jacó; e disse consigo mesmo, e contou a outros: "Meu pai Isaque está muito velho e não pode viver por muito tempo. Assim que ele morrer, matarei Jacó, por ter-me roubado o meu direito."
Quando Rebeca ouviu isso, disse a Jacó: "Antes que seja tarde demais, vai embora de casa e sai da vista de Esaú. Talvez, quando Esaú não te vir mais, ele se esqueça da sua ira; e então poderás voltar para casa. Vai visitar o meu irmão Labão, teu tio, em Harã, e fica com ele por algum tempo, até que passe a ira de Esaú."
Vocês se lembram de que Rebeca vinha da família de Naor, o irmão mais novo de Abraão, que morava em Harã, muito distante, ao nordeste de Canaã; e de que Labão era irmão de Rebeca, como foi contado na História Onze.
Assim, Jacó saiu de Berseba, na fronteira do deserto, e caminhou sozinho rumo a uma terra longínqua, ao norte, levando o seu cajado na mão. Certa tarde, quase ao pôr do sol, chegou a um lugar entre as montanhas, a mais de cem quilômetros de sua casa. E como não tinha cama em que se deitar, tomou uma pedra, apoiou nela a cabeça como travesseiro e deitou-se para dormir. Acharíamos aquilo um travesseiro bem duro, mas Jacó estava cansado, e logo adormeceu.
E naquela noite Jacó teve um sonho maravilhoso. No seu sonho, viu uma escada que subia da terra onde ele estava deitado até o céu; e anjos desciam e subiam pela escada. E, acima da escada, viu o Senhor Deus, em pé. E Deus disse a Jacó:
"Eu sou o Senhor, o Deus de Abraão e o Deus de Isaque, teu pai; e serei também o teu Deus. A terra onde estás deitado, todo sozinho, pertencerá a ti e aos teus filhos depois de ti; e os teus descendentes se espalharão pelas terras, para o oriente e o ocidente, para o norte e o sul, como o pó da terra; e na tua família todo o mundo receberá uma bênção. E eu estou contigo na tua jornada, e te guardarei por onde fores, e te farei voltar a esta terra. Nunca te deixarei, e certamente cumprirei a minha promessa a ti."
E pela manhã Jacó despertou do seu sono e disse: "Certamente o Senhor está neste lugar, e eu não o sabia! Eu pensava que estava todo sozinho, mas Deus tem estado comigo. Este lugar é a casa de Deus; é a porta do céu!"
E Jacó tomou a pedra sobre a qual a sua cabeça havia repousado, levantou-a como coluna e derramou azeite sobre ela, como oferta a Deus. E Jacó deu àquele lugar o nome de Betel, que na língua falada por Jacó significa "A Casa de Deus".
E Jacó fez então uma promessa a Deus, dizendo:
"Se Deus realmente for comigo, e me guardar no caminho por onde eu ando, e me der pão para comer, e me trouxer em paz à casa de meu pai, então o Senhor será o meu Deus; e esta pedra será a casa de Deus; e de tudo o que Deus me der, eu devolverei a Deus a décima parte, como oferta."
Depois Jacó seguiu adiante na sua longa jornada. Atravessou a vau o rio Jordão, num lugar raso, tateando o caminho com o cajado; subiu montanhas e caminhou à beira do grande deserto do oriente, e por fim chegou à cidade de Harã. Junto à cidade ficava o poço onde o servo de Abraão havia encontrado Rebeca, a mãe de Jacó (vejam a História Onze); e ali, depois de Jacó ter esperado algum tempo, ele viu uma jovem que vinha chegando com as suas ovelhas, para dar-lhes água.
Então Jacó removeu a pedra chata que cobria a boca do poço, tirou água e deu-a às ovelhas. E quando descobriu que aquela jovem era a sua própria prima Raquel, filha de Labão, ficou tão contente que chorou de alegria. E naquele momento começou a amar Raquel, e desejou tê-la por esposa.
O pai de Raquel, Labão, que era tio de Jacó, irmão de Rebeca, a mãe de Jacó, deu boas-vindas a Jacó e o recebeu em sua casa.
E Jacó perguntou a Labão se ele lhe daria a sua filha Raquel por esposa; e Jacó disse: "Se me deres Raquel, trabalharei para ti sete anos." E Labão respondeu: "É melhor que ela seja tua do que de um estranho."
Assim Jacó viveu sete anos na casa de Labão, cuidando das suas ovelhas, dos seus bois e dos seus camelos; e tão grande era o seu amor por Raquel que os sete anos lhe pareceram poucos dias.
Enfim chegou o dia do casamento; e trouxeram a noiva, que, segundo o costume daquela terra, vinha coberta com um véu espesso, de modo que não se podia ver o seu rosto. E ela se casou com Jacó; e quando Jacó levantou o véu, descobriu que se havia casado não com Raquel, a quem amava, mas com a irmã mais velha dela, Lia, que não era bela, e a quem Jacó não amava de modo algum.
Jacó ficou muito irado por ter sido enganado, embora tivesse sido exatamente assim que ele próprio enganara o seu pai e defraudara o seu irmão Esaú (vejam a História Doze). Mas o seu tio Labão disse:
"Na nossa terra, nunca permitimos que a filha mais nova se case antes da mais velha. Fica com Lia por esposa, trabalha para mim mais sete anos, e terás também Raquel."
Pois naqueles tempos, como já vimos, os homens muitas vezes tinham duas esposas, ou mesmo mais de duas. Ninguém pensava, então, que fosse errado ter mais de uma esposa, embora hoje isso seja considerado muito mau. Assim Jacó ficou mais sete anos, catorze anos ao todo, antes de receber Raquel por esposa.
Enquanto Jacó morava em Harã, nasceram-lhe onze filhos. Mas só um deles era filho de Raquel, a quem Jacó amava. Esse filho era José, que era mais querido para Jacó do que qualquer outro dos seus filhos, em parte porque era o mais novo, e também porque era o filho da sua amada Raquel.