Jacó ficou muito tempo na terra de Harã, muito mais do que esperava ficar. E naquela terra Jacó enriqueceu. Como pagamento pelo seu trabalho com Labão, Jacó recebia uma parte das ovelhas, dos bois e dos camelos. E como Jacó era muito sábio e cuidadoso no seu trabalho, a sua parte foi crescendo, até que Jacó possuiu um grande rebanho e muito gado. Por fim, depois de vinte anos, Jacó resolveu voltar para a terra de Canaã e para o seu pai Isaque, que ainda vivia, embora já muito velho e fraco.
Jacó não contou ao seu tio Labão que ia embora; mas, enquanto Labão estava fora de casa, Jacó reuniu as suas esposas e os seus filhos, e todas as suas ovelhas, o seu gado e os seus camelos, e partiu às escondidas, em silêncio. Quando Labão descobriu que Jacó o havia deixado, não gostou nada disso; pois queria que Jacó continuasse cuidando dos seus bens, porque Jacó os administrava melhor do que o próprio Labão, e Deus abençoava tudo o que Jacó empreendia. Além disso, Labão não gostava de ver as suas duas filhas, as esposas de Jacó, levadas para tão longe dele.
Então Labão e os homens que estavam com ele saíram em perseguição a Jacó; mas naquela noite Deus falou a Labão num sonho e disse:
"Não faças mal algum a Jacó, quando o encontrares."
Por isso, quando Labão chegou ao lugar onde Jacó estava acampado, no monte Gileade, a leste do rio Jordão, Labão falou com bondade a Jacó. E Jacó e Labão fizeram uma aliança, isto é, uma promessa entre os dois. Empilharam um montão de pedras e sobre ele levantaram uma grande rocha, como uma coluna; e junto ao montão de pedras comeram juntos uma refeição; e Jacó disse a Labão:
"Prometo não passar deste montão de pedras e desta coluna para te fazer mal algum. Que o Deus do teu avô Naor e o Deus do meu avô Abraão sejam juízes entre nós."
E Labão fez a mesma promessa a Jacó; e depois beijou as suas filhas, as duas esposas de Jacó, e todos os filhos de Jacó, e despediu-se deles; e Labão voltou para Harã, e Jacó seguiu para Canaã.
E Jacó deu dois nomes ao montão de pedras onde haviam feito a aliança. Um nome foi "Galeede", palavra que significa "O Montão do Testemunho". O outro foi "Mispá", que significa "Torre de Vigia". Pois Jacó disse: "Que o Senhor vigie entre mim e ti, quando estivermos longe um do outro."
Enquanto Jacó voltava para Canaã, ouviu uma notícia que o encheu de medo. Soube que Esaú, seu irmão, vinha ao seu encontro, à frente de um exército de quatrocentos homens. Ele sabia quão irado Esaú havia ficado muito tempo antes, e como havia ameaçado matá-lo. E Jacó temia que Esaú agora caísse sobre ele e matasse não só o próprio Jacó, mas também as suas esposas e os seus filhos. Se Jacó tivesse agido corretamente com o seu irmão, não precisaria temer a vinda de Esaú; mas ele sabia o mal que fizera a Esaú, e tinha um medo terrível de encontrá-lo.
Naquela noite Jacó dividiu a sua gente em dois grupos, para que, se um grupo fosse atacado, o outro pudesse escapar. E enviou adiante de si, como presente para o seu irmão, uma grande manada de bois e vacas, ovelhas e cabras, camelos e jumentos, na esperança de que, com o presente, o seu irmão se tornasse mais bondoso para com ele. E então Jacó orou fervorosamente ao Senhor Deus, pedindo que o ajudasse. Depois disso, fez toda a sua família atravessar um ribeiro que estava no seu caminho, chamado ribeiro Jaboque, enquanto ele ficava sozinho do outro lado do ribeiro, para orar de novo.
E enquanto Jacó estava sozinho, sentiu que um homem o havia agarrado, e Jacó lutou com aquele homem desconhecido a noite inteira. E o homem era um anjo de Deus. Lutaram com tanta força que a coxa de Jacó se deslocou na luta. E o anjo disse:
"Deixa-me ir, pois o dia está raiando."
E Jacó respondeu:
"Não te deixarei ir enquanto não me abençoares." E o anjo perguntou:
"Qual é o teu nome?"
E Jacó respondeu: "Jacó é o meu nome."
Então o anjo disse:
"O teu nome não será mais Jacó, e sim Israel, isto é, 'Aquele que luta com Deus'. Pois lutaste com Deus e alcançaste a vitória."
E o anjo o abençoou ali. E o sol nasceu quando o anjo o deixou; e Jacó deu um nome àquele lugar. Chamou-o Peniel, ou Penuel, palavras que, na língua falada por Jacó, significam "A Face de Deus". "Pois", disse Jacó, "encontrei Deus face a face." E depois disso Jacó ficou manco, porque na luta havia machucado a coxa.
E quando Jacó atravessou o ribeiro Jaboque, de manhã bem cedo, ergueu os olhos, e lá estava Esaú, bem diante dele. Ele se inclinou com o rosto até o chão, muitas e muitas vezes, como fazem as pessoas daquelas terras quando encontram alguém de posição mais alta que a sua. Mas Esaú correu ao seu encontro, lançou-lhe os braços ao pescoço e o beijou; e os dois irmãos choraram juntos. Esaú foi bondoso e generoso em perdoar ao irmão todo o mal que ele lhe havia feito; e a princípio não queria aceitar o presente de Jacó, pois disse: "Eu tenho o bastante, meu irmão." Mas Jacó insistiu, até que por fim ele aceitou o presente. E assim terminou a desavença, e os dois irmãos ficaram em paz.
Jacó chegou a Siquém, no meio da terra de Canaã, e ali armou as suas tendas; e ao pé da montanha, embora houvesse riachos de água por todos os lados, cavou o seu próprio poço, grande e fundo; o poço junto ao qual Jesus se sentou e conversou com uma mulher, muitas eras depois daquele tempo; e o poço que ainda hoje pode ser visto. Ainda agora o viajante que visita aquele lugar pode beber da água do poço de Jacó.
Depois disso Jacó teve um novo nome, Israel, que significa, como vimos, "Aquele que luta com Deus". Às vezes era chamado Jacó, e às vezes Israel. E todos os que descendem de Israel, os seus descendentes, foram chamados israelitas.
Depois disso morreu Isaque, muito velho, e foi sepultado pelos seus filhos Jacó e Esaú na caverna de Hebrom, onde Abraão e Sara já estavam sepultados. Esaú, com os seus filhos e o seu gado, foi para uma terra a sudeste de Canaã, que se chamava Edom. E Jacó, ou Israel, e a sua família viveram na terra de Canaã, morando em tendas e mudando-se de lugar em lugar, onde pudessem encontrar boa pastagem, isto é, capim com que alimentar os seus rebanhos.