Depois que Jacó voltou para a terra de Canaã com os seus onze filhos, nasceu-lhe outro filho, o segundo da sua esposa Raquel, a quem Jacó tanto amava. Vocês se lembram de que contamos, na História Treze, quanto tempo Jacó trabalhou para Labão, cuidando das suas ovelhas e dos seus bois, para poder ter Raquel por esposa. Mas agora uma grande tristeza viria sobre Jacó, pois, pouco depois de o bebê nascer, a sua mãe, Raquel, morreu, e Jacó ficou cheio de dor. Ainda hoje se pode ver o lugar onde Raquel foi sepultada, na estrada entre Jerusalém e Belém. Jacó deu ao menino que Raquel deixou o nome de Benjamim; e agora Jacó tinha doze filhos. A maioria deles já eram homens feitos, mas José era um rapaz de dezessete anos, e o seu irmão Benjamim era quase um bebê.
De todos os seus filhos, Jacó amava José acima de todos, porque era filho de Raquel, porque era muito mais novo do que a maioria dos seus irmãos, e porque era bom, fiel e atencioso. Jacó deu a José uma túnica, ou capa, de cores vivas, feita como um manto comprido, de mangas largas. Era um sinal especial do favor de Jacó para com José, e isso deixou os seus irmãos mais velhos muito invejosos dele.
Além disso, José fazia o que era certo, enquanto os seus irmãos mais velhos muitas vezes praticavam ações muito más, das quais José às vezes contava ao pai deles, e isso os deixava muito irritados com José. Mas eles o odiaram ainda mais por causa de dois sonhos estranhos que ele teve e que lhes contou. Disse ele um dia:
"Escutem este sonho que tive. Sonhei que estávamos no campo atando feixes de trigo, quando de repente o meu feixe se levantou, e todos os feixes de vocês vieram ao redor dele e se curvaram diante do meu feixe." E eles disseram, com desprezo: "Por acaso pensas que o sonho significa que um dia hás de reinar sobre nós, e que nos curvaremos diante de ti?" Poucos dias depois, José disse: "Sonhei de novo. Desta vez vi no meu sonho o sol, a lua e onze estrelas, todos vindo curvar-se diante de mim."
E o seu pai lhe disse: "Não gosto que sonhes tais sonhos. Acaso eu, a tua mãe e os teus irmãos viremos curvar-nos diante de ti, como se fosses um rei?"
Os seus irmãos odiavam José e não conseguiam falar-lhe com bondade; mas o seu pai guardava no coração o que José havia dito.
Certa vez, os dez irmãos mais velhos de José estavam cuidando do rebanho nos campos perto de Siquém, que ficava a quase oitenta quilômetros de Hebrom, onde estavam armadas as tendas de Jacó. E Jacó quis mandar um recado aos seus filhos, e chamou José e lhe disse: "Os teus irmãos estão perto de Siquém, com o rebanho. Quero que vás até eles, leves um recado e vejas se estão bem, e se os rebanhos vão bem; e traze-me notícias deles."
Era uma missão e tanto para um rapaz: atravessar sozinho a região, encontrando o caminho por oitenta quilômetros, e depois voltar a pé para casa. Mas José era um rapaz que sabia cuidar de si e em quem se podia confiar; e assim partiu na sua jornada, caminhando para o norte, pelas montanhas, passando por Belém, Jerusalém e Betel — embora não tenhamos certeza de que alguma dessas cidades já estivesse construída, exceto Jerusalém, que sabemos que já era uma cidade forte.
Quando José chegou a Siquém, não conseguiu encontrar os seus irmãos, pois eles haviam levado os rebanhos para outro lugar. Um homem encontrou José vagando pelo campo e lhe perguntou: "A quem procuras?" José respondeu: "Procuro os meus irmãos, os filhos de Jacó. Podes dizer-me onde os encontrarei?" E o homem disse: "Estão em Dotã, pois eu os ouvi dizer que iam para lá." Então José caminhou pelas colinas até Dotã, que ficava a mais vinte e cinco quilômetros. E os seus irmãos o viram de longe, vindo em direção a eles. Reconheceram-no pela sua túnica de cores vivas; e disseram uns aos outros:
"Olhem, lá vem aquele sonhador! Vamos matá-lo, jogar o seu corpo num poço e dizer ao seu pai que alguma fera o devorou; e então veremos o que será dos seus sonhos."
Um dos irmãos, chamado Rúben, tinha mais bondade para com José do que os outros; mas não ousava opor-se abertamente aos demais. Rúben disse:
"Não o matemos; joguemo-lo antes neste poço, aqui no deserto, e deixemo-lo ali para morrer."
Mas a intenção de Rúben era, depois que os outros se afastassem, tirar José do poço e levá-lo de volta para o pai. Os irmãos fizeram como Rúben lhes disse: jogaram José no poço, que estava vazio. Ele chorou e implorou que o salvassem, mas eles não quiseram. Sentaram-se tranquilamente para comer a sua refeição sobre a relva, enquanto o irmão os chamava de dentro do poço.
Depois da refeição, aconteceu de Rúben ir a outra parte do campo, de modo que não estava presente quando passou por ali uma caravana de homens com os seus camelos, vindos de Gileade, a leste do rio Jordão, a caminho do Egito, para vender aos egípcios especiarias e resina perfumada das árvores. Então Judá, outro dos irmãos de José, disse: "Que ganharemos em matar o nosso irmão? Não seria melhor vendê-lo a estes homens e deixar que o levem embora? Afinal, ele é nosso irmão; melhor será não o matarmos."
Os irmãos concordaram com ele; então detiveram os homens que passavam, tiraram José do poço e, por vinte moedas de prata, venderam José àqueles homens; e eles o levaram consigo para o Egito.
Passado algum tempo, Rúben voltou ao poço onde havia deixado José e olhou para dentro dele; mas José não estava lá. Então Rúben ficou muito aflito e voltou aos seus irmãos, dizendo: "O menino não está lá! Que farei agora?"
Então os irmãos contaram a Rúben o que haviam feito, e todos combinaram enganar o pai. Mataram um dos cabritos, mergulharam a túnica de José no sangue, levaram-na ao pai e lhe disseram: "Encontramos esta túnica no deserto. Olha bem e vê se achas que era do teu filho." E Jacó a reconheceu imediatamente. Disse ele: "É a túnica do meu filho. Alguma fera o devorou. Não há dúvida de que José foi despedaçado!"
E o coração de Jacó se partiu com a perda de José, tanto mais porque fora ele quem enviara José sozinho na jornada pelo deserto. Tentaram consolá-lo, mas ele não aceitava consolo. Dizia:
"Descerei à sepultura chorando pelo meu pobre filho perdido."
Assim o velho pai chorava pelo seu filho José; e durante todo esse tempo os seus irmãos malvados sabiam que José não estava morto; mas não quiseram contar ao pai o ato terrível que haviam cometido contra o irmão, vendendo-o como escravo.