Enquanto Moisés estava na montanha, a sós com Deus, uma coisa estranha e perversa se fazia no acampamento da planície. A princípio o povo ficou assustado ao ver a montanha fumegando e ao ouvir o trovão. Mas logo se acostumou, e quando os dias foram passando, um após outro, e Moisés não descia, por fim disseram a Arão:
"Vem, faze-nos um deus que possamos adorar e que nos guie. Quanto a Moisés, o homem que nos tirou da terra do Egito, não sabemos o que foi feito dele."
Arão não era homem de vontade firme, como Moisés. Quando seu irmão Moisés não estava ao seu lado, Arão era fraco e pronto a ceder aos desejos do povo. Arão disse:
"Se precisais de um deus que possais ver, então arrancai os brincos de ouro que estão nas vossas orelhas e nas orelhas das vossas mulheres e dos vossos filhos, e trazei-os a mim."
Então o povo trouxe o seu ouro a Arão; e Arão fundiu os anéis de ouro numa só massa e moldou-a com um buril na forma de um bezerro; e trouxe-o para fora e o ergueu diante do povo. Então todos exclamaram:
"Este é o teu deus, ó Israel, que te tirou da terra do Egito!"
E Arão edificou um altar diante da imagem e disse a todo o povo: "Amanhã haverá uma festa ao Senhor."
Talvez Arão pensasse que, se o povo pudesse ter diante de si uma imagem visível, ainda assim se manteria na adoração do Senhor Deus. Mas nisso ele se enganou gravemente. O povo veio à festa e ofereceu sacrifícios; e depois começaram a dançar em volta do altar e a praticar juntos ações perversas, como tinham visto o povo do Egito fazer diante dos seus ídolos. E durante todo esse tempo a montanha fumegava e lampejava fogo, quase sobre as suas cabeças!
E o Senhor, lá no alto da montanha, falou a Moisés e disse:
"Apressa-te e desce ao acampamento, porque o teu povo agiu muito perversamente. Fizeram para si um ídolo, e neste momento o estão adorando. Estou irado contra eles e pronto a destruí-los todos, e a fazer dos teus filhos uma grande nação."
E Moisés intercedeu junto ao Senhor por Israel, e Deus não destruiu o povo; mas fez Moisés descer até eles, levando nas mãos as duas tábuas de pedra sobre as quais Deus havia escrito os Dez Mandamentos. Enquanto descia a montanha, Josué se juntou a ele e lhe disse:
"Ouço um barulho de guerra no acampamento. Não é o som de homens que gritam pela vitória, nem é o clamor dos que são derrotados na batalha; é uma voz de canto que eu ouço."
E um momento depois, quando pararam num lugar de onde podiam olhar o acampamento lá embaixo, ali estava o bezerro de ouro, e em volta dele o povo, fazendo ofertas, banqueteando-se, dançando e cantando.
E Moisés ficou tão indignado ao ver toda a maldade e a vergonha do seu povo, que atirou das mãos as duas tábuas e as despedaçou sobre as rochas. De que valia guardar as tábuas de pedra, deve ter pensado ele, enquanto o povo quebrava as leis escritas nelas?
Moisés entrou direto no meio da multidão, e no mesmo instante toda a dança e todo o festejo cessaram. Ele derrubou o bezerro de ouro, quebrou-o em pedaços, queimou-o no fogo, moeu-o até virar pó e lançou-o na água; e fez o povo beber a água cheia daquele pó. Queria ensinar ao povo que, por sua ação perversa, sofreriam um castigo amargo como aquela água.
Então Moisés voltou-se para Arão:
"Que te levou a um ato como este?", disse Moisés. "Por que deixaste que o povo te persuadisse a fazer-lhe uma imagem para adorar?"
E Arão disse: "Não te ires contra mim; tu sabes como o coração deste povo está inclinado ao mal. Vieram a mim e disseram: 'Faze-nos um deus', e eu lhes disse: 'Dai-me todo o ouro que tiverdes.' Eles mo deram, eu lancei o ouro no fogo, e saiu este bezerro!"
Então Moisés pôs-se à entrada do acampamento e bradou:
"Quem está do lado do Senhor venha e fique junto a mim!" Então uma tribo inteira, das doze tribos de Israel, a tribo de Levi, todos descendentes de Levi, um dos filhos de Jacó, veio e se colocou ao lado de Moisés. E Moisés lhes disse:
"Desembainhai as vossas espadas, percorrei o acampamento e matai todo aquele que encontrardes curvado diante do ídolo. Não poupeis ninguém. Feri os vossos amigos e os vossos vizinhos, se estiverem adorando a imagem."
E naquele dia três mil dos adoradores do ídolo foram mortos pelos filhos de Levi.
Então Moisés disse ao povo: "Cometestes um grande pecado; mas eu irei ao Senhor, e lhe farei uma oferta, e lhe pedirei que perdoe o vosso pecado."
E Moisés foi perante o Senhor, orou pelo povo e disse:
"Ó Senhor, este povo cometeu um grande pecado. Contudo, agora, perdoa o seu pecado, se for da tua vontade. E se não quiseres perdoar o seu pecado, então deixa que eu sofra com eles, porque são o meu povo."
E o Senhor perdoou o pecado do povo, e tomou-o mais uma vez por seu, e prometeu ir com ele e conduzi-lo à terra que havia prometido aos seus pais.
E Deus disse a Moisés: "Lavra duas tábuas de pedra, como as que eu te dei e que quebraste; e traze-as a mim, no monte, e escreverei nelas novamente as palavras da lei."
Assim Moisés subiu pela segunda vez ao monte santo; e ali Deus falou com ele outra vez. Moisés ficou quarenta dias nesse segundo encontro com Deus, como já havia ficado quarenta dias na montanha antes. E durante todo esse tempo, enquanto Deus falava com Moisés, o povo esperava no acampamento; e não tornaram a levantar ídolo algum para adorar.
Mais uma vez Moisés desceu a montanha, trazendo as duas tábuas de pedra sobre as quais Deus havia escrito as palavras da sua lei, os Dez Mandamentos. E Moisés estivera tão perto da glória de Deus, e permanecera tanto tempo no resplendor da luz de Deus, que, quando entrou no acampamento de Israel, o seu rosto brilhava, embora ele não o soubesse. O povo não conseguia olhar para o rosto de Moisés, de tanto que resplandecia. E Moisés percebeu que, quando falava com o povo, precisava cobrir o rosto com um véu. Quando ia falar com Deus, tirava o véu; mas, enquanto falava com o povo, mantinha o rosto coberto, porque ele brilhava como o sol.