Enquanto os israelitas estavam no seu acampamento na planície junto ao rio Jordão, ao pé das montanhas de Moabe, Deus disse a Moisés que contasse o número dos homens que tinham idade e força suficientes para sair à guerra. E Moisés mandou contar os homens de mais de vinte anos, e descobriu que eram pouco mais de seiscentos mil. Além desses, havia as mulheres e as crianças.
E entre todos eles havia apenas três homens com mais de sessenta anos de idade — homens que tinham mais de vinte anos quarenta anos antes, quando os israelitas saíram do Egito. Os homens que tiveram medo de entrar na terra de Canaã, quando estiveram em Cades-Barneia pela primeira vez (vê a História Trinta), haviam todos morrido. Alguns tinham sido mortos pelos inimigos na guerra; alguns haviam morrido no deserto durante os quarenta anos; alguns pereceram pela praga; alguns foram mordidos pelas serpentes ardentes. De todos os que haviam saído do Egito já homens feitos, os únicos vivos eram Moisés, Josué e Calebe. Moisés tinha agora cento e vinte anos. Vivera quarenta anos como príncipe no Egito, quarenta anos como pastor em Midiã e quarenta anos como condutor de Israel no deserto. Mas, embora fosse tão velho, Deus lhe havia conservado o vigor. Os seus olhos eram tão brilhantes, a sua mente tão clara, e o seu braço e o seu coração tão fortes como quando era jovem.
O povo de Israel tinha agora posse plena de toda a terra a leste do rio Jordão, desde o ribeiro Arnom até o grande monte Hermom. Grande parte dessa terra era muito boa para pastagem, pois a relva era verde e viçosa, e havia muitas correntes de água. Havia duas das doze tribos, e metade de outra tribo, cujo povo possuía grandes rebanhos de ovelhas e cabras, e manadas de gado. Eram as tribos descendentes de Rúben e Gade, filhos de Jacó, e metade da tribo de Manassés, filho de José. Pois havia duas tribos descendentes de José: as tribos de Efraim e de Manassés.
Os homens de Rúben, de Gade e metade dos homens de Manassés vieram a Moisés e disseram:
"A terra deste lado do rio é boa para a criação de ovelhas e gado, e nós somos pastores e criadores. Não poderíamos ter as nossas possessões deste lado do rio, e dar toda a terra além do rio aos nossos irmãos das outras tribos?"
Moisés não se agradou disso, pois pensou que os homens dessas tribos queriam ter logo o seu lar para não irem à guerra com as demais tribos; e talvez isso estivesse mesmo nos seus pensamentos.
Por isso Moisés lhes disse:
"Irão os vossos irmãos das outras tribos à guerra, e ficareis vós sentados aqui na vossa própria terra, sem os ajudar? Isso seria perverso, e desagradaria ao Senhor vosso Deus." Então os homens das duas tribos e da meia tribo vieram de novo a Moisés e lhe disseram:
"Construiremos aqui apriscos para as nossas ovelhas, e escolheremos algumas cidades onde deixar as nossas mulheres e os nossos filhos; mas nós mesmos iremos armados com os nossos irmãos das outras tribos, e os ajudaremos a tomar a terra do outro lado do Jordão. Não voltaremos para este lado do rio até que a guerra termine e os nossos irmãos tenham recebido as suas porções da terra, cada tribo a sua parte; e não tomaremos porção alguma do outro lado do rio, porque o nosso lugar nos foi dado aqui. E quando a terra estiver toda conquistada e repartida, então voltaremos para cá, para as nossas mulheres e os nossos filhos."
Então Moisés ficou satisfeito com a promessa que haviam feito, e repartiu a terra a leste do Jordão entre essas tribos. Aos homens de Rúben deu a terra do sul; aos homens de Gade, a terra do meio; e à meia tribo de Manassés, a terra do norte, a região chamada Basã. E depois que as suas mulheres, os seus filhos e os seus rebanhos foram postos em segurança, os homens de guerra vieram ao acampamento, prontos para atravessar o rio com as outras tribos quando Deus os chamasse.
E agora a obra de Moisés estava quase terminada. Deus lhe disse:
"Reúne os filhos de Israel e dize-lhes as tuas últimas palavras, porque não conduzirás o povo através do Jordão. Morrerás nesta terra, como te disse em Cades." (Vê a História Trinta e Um.)
Então Moisés chamou os chefes das doze tribos diante da sua tenda e lhes disse muitas coisas, que podes ler no livro da Bíblia chamado Deuteronômio. Ali está registrado todo o longo discurso de Moisés. Ele lhes contou as maravilhas que Deus havia feito pelos seus pais e por eles. Deu-lhes de novo todas as palavras da lei de Deus. Disse-lhes que não somente deviam guardar a lei de Deus, mas também ensiná-la aos seus filhos, para que nunca fosse esquecida. E Moisés cantou um cântico de despedida e escreveu todas as suas últimas palavras.
Depois deu as suas ordens a Josué, a quem Deus havia escolhido para tomar o seu lugar como governante e condutor do povo; embora nenhum homem pudesse tomar o lugar de Moisés como profeta de Deus e transmissor da lei de Deus. Pôs as mãos sobre a cabeça de Josué; e Deus deu a Josué uma parte do seu Espírito que estivera sobre Moisés.
Então Moisés, completamente só, saiu do acampamento, enquanto todo o povo o olhava e chorava. Devagar subiu a encosta da montanha, até que não o viram mais. Subiu ao cume do monte Nebo, pôs-se sozinho no alto e contemplou a Terra da Promessa, que se estendia diante dele. Longe, ao norte, podia ver a coroa branca do monte Hermom, onde sempre há neve. Aos seus pés, mas lá muito embaixo, o rio Jordão serpenteava descendo para o mar Morto. Do outro lado do rio, ao pé das montanhas, erguia-se a cidade de Jericó, cercada por uma alta muralha. Nos cumes das montanhas mais além podia ver Hebrom, onde Abraão, Isaque e Jacó estavam sepultados; podia ver Jerusalém, e Betel, e as duas montanhas entre as quais Siquém ficava escondida, no centro da terra. E aqui e ali, pelos vales, podia ver ao longe, no ocidente, as águas reluzentes do Grande Mar.
Então Moisés, completamente só, deitou-se no cume da montanha e morreu. Arão e Hur, que haviam sustentado as mãos de Moisés na batalha (vê a História Vinte e Cinco), já tinham ambos morrido, e não havia homem algum no monte Nebo para sepultar Moisés; por isso o próprio Deus o sepultou, e nenhum homem sabe onde Deus depositou o corpo de Moisés, que servira a Deus com tanta fidelidade.
E depois de Moisés nunca houve um homem que vivesse tão perto de Deus e falasse com Deus tão livremente, como alguém que fala face a face com o seu amigo, até que, muito tempo depois, Jesus Cristo, o Filho de Deus, e maior que Moisés, veio habitar entre os homens.