A grande guerra pela conquista de Canaã estava agora terminada, embora na terra algumas cidades ainda estivessem nas mãos do povo cananeu. Mesmo assim, os israelitas já dominavam a maior parte do país, e Josué preparou-se para dividir a terra entre as tribos de Israel.
Um dia, os chefes da tribo de Judá vieram à tenda de Josué em Gilgal, e com eles veio um homem idoso, Calebe, de quem vos lembrais como um dos doze espias enviados por Moisés, de Cades-Barneia, para percorrer a terra de Canaã. Isso fora muitos anos antes, e Calebe era agora, como Josué, um homem velho, com mais de oitenta anos. Ele disse a Josué:
"Lembras-te do que o Senhor disse a Moisés, o homem de Deus, quando estávamos no deserto, em Cades-Barneia, e tu e eu, com os outros espias, trouxemos o nosso relatório. Eu disse a Moisés a palavra que estava no meu coração, e segui o Senhor de todo o coração, enquanto os outros espias falavam movidos pelo próprio medo e atemorizavam o povo. Naquele dia, tu te lembras, Moisés me disse: 'A terra que os teus pés pisaram e por onde andaste será tua, porque confiaste no Senhor.'
"Isso foi há quarenta e cinco anos", continuou Calebe, "e Deus me conservou vivo todos esses anos. Hoje, aos oitenta e cinco anos de idade, estou tão forte como era naquele dia. E agora peço que a promessa feita por Moisés seja cumprida, e que eu possa escolher o meu lugar na terra."
"Pois bem", disse Josué, "podes fazer a tua escolha na terra. Que parte dela escolherás?"
E Calebe respondeu:
"O lugar que escolho é exatamente aquela montanha em que vimos a cidade de muros altos, onde então moravam os gigantes, e onde agora moram outros gigantes, seus filhos: a cidade de Hebrom. Sei que os muros são altos e que os gigantes vivem ali. Mas o Senhor ajudará a tomar as cidades e a expulsar o povo que nelas habita. Dá-me a cidade de Hebrom."
Era muita ousadia, num homem tão velho como Calebe, escolher a cidade que ainda não fora tomada dos inimigos, e uma das mais difíceis de conquistar, quando poderia ter escolhido algum lugar rico já ganho. Mas Calebe, aos oitenta e cinco anos, mostrava o mesmo espírito de coragem, a mesma disposição para a guerra e a mesma fé em Deus que mostrara no vigor dos seus quarenta anos. Então Josué disse a Calebe: "Terás a cidade de Hebrom, com todos os seus gigantes, se reunires os teus homens e a tomares." E o velho soldado reuniu os seus homens e os conduziu contra a forte cidade de Hebrom, onde estava o túmulo de Abraão, Isaque e Jacó. Com a ajuda do Senhor, Calebe conseguiu expulsar os gigantes, por mais altos e poderosos que fossem. Eles fugiram dos homens de Calebe e desceram para o litoral, a oeste da terra, e foram viver entre o povo daquela região, chamado filisteus; enquanto Calebe, os seus filhos e os seus descendentes, por muito tempo depois dele, conservaram a cidade de Hebrom, no sul da terra.
Depois disso, por ordem do Senhor, Josué dividiu a terra entre as tribos. Duas tribos e metade de outra já haviam recebido as suas terras a leste do Jordão; restavam, pois, nove tribos e meia para receber os seus quinhões. Judá, uma das maiores, ficou com a região montanhosa a oeste do mar Morto, de Hebrom até Jerusalém; Simeão ficou ao sul, na direção do deserto; Benjamim, ao norte de Judá, do lado leste, na direção do Jordão; e Dã, ao norte de Judá, do lado oeste, na direção do Grande Mar.
No centro do país, ao redor da cidade de Siquém e dos dois montes, Ebal e Gerizim, onde Josué havia lido a lei ao povo, ficava a terra da tribo de Efraim. Era uma das melhores partes de todo o país, pois o solo era fértil e havia muitas fontes e correntes de água. E ali, perto do monte Ebal, sepultaram o corpo de José, o pai da sua tribo, que haviam guardado no seu caixão de pedra, sem sepultar, desde que saíram do Egito, mais de quarenta anos antes. Como o próprio Josué pertencia à tribo de Efraim, o seu lar também ficava nessa terra.
Ao norte de Efraim, estendendo-se do rio Jordão até o Grande Mar, ficava a terra da outra metade da tribo de Manassés. As duas tribos, Efraim e Manassés, descendiam de José. Assim os descendentes de José tiveram duas tribos, como fora prometido por Jacó quando estava para morrer.
A parte norte da terra foi dividida entre quatro tribos. Issacar ficou ao sul; Aser, a oeste, junto ao Grande Mar; Zebulom, no meio, entre as montanhas; e Naftali, ao norte, junto ao lago que mais tarde seria chamado mar da Galileia. Naquele tempo esse lago chamava-se mar de Quinerete, porque a palavra "kinnor" significa "harpa"; e como achavam que o lago tinha mais ou menos a forma de uma harpa, deram-lhe o nome de "mar em forma de harpa".
Mas, embora toda a terra tivesse sido dividida, nem toda havia sido completamente conquistada. Quase todo o povo cananeu continuava ali, morando na terra, ainda que na região das montanhas estivesse sob o domínio dos israelitas. Na planície junto ao Grande Mar, porém, a oeste da terra, estavam os filisteus, um povo muito forte que os israelitas ainda não haviam enfrentado na guerra — embora estivesse chegando o tempo em que os enfrentariam, e sofreriam nas suas mãos.
E mesmo entre as montanhas havia muitas cidades onde o povo cananeu ainda vivia, e em algumas delas eles eram fortes. Anos depois, quando Josué, o grande guerreiro, já não vivia, muitos desses povos se levantaram para afligir os israelitas. Chegou o tempo em que as tribos de Israel muitas vezes desejaram que os seus pais tivessem expulsado ou destruído completamente os cananeus, antes de cessarem a guerra e dividirem a terra.
Mas quando Josué dividiu a terra e enviou as tribos para os seus novos lares, a paz parecia reinar sobre todo o país. Até aqui temos falado de toda essa terra como a terra de Canaã; mas agora, e daí em diante, ela seria chamada "a Terra de Israel", ou "a Terra das Doze Tribos", pois agora era o lar deles.