Mais uma vez muitos do povo de Israel se afastaram do culto ao Senhor e começaram a viver como os povos ao seu redor, orando a ídolos e praticando o mal. E mais uma vez o Senhor os deixou sofrer pelos seus pecados. Um rei cananeu do norte, chamado Jabim, enviou o seu exército para conquistá-los, sob o comando do seu general, chamado Sísera. No exército de Sísera havia muitos carros de ferro, puxados por cavalos; e os soldados, de dentro dos carros, atiravam flechas e lançavam dardos contra os israelitas. Os homens de Israel não estavam acostumados a cavalos e temiam muito esses carros de guerra.
Todas as tribos do norte da terra de Israel caíram sob o poder do rei Jabim e do seu general, Sísera; e o seu domínio era muito duro e severo. Essa foi a quarta das "opressões", e pesou principalmente sobre o povo do norte. Mas levou os que sofriam com ela a abandonar os seus ídolos e a clamar ao Senhor, o Deus de Israel.
Naquele tempo, uma mulher governava como juíza sobre grande parte da terra; a única mulher entre os quinze juízes que, um após outro, governaram os israelitas. O seu nome era Débora. Ela se assentava debaixo de uma palmeira ao norte de Jerusalém, entre as cidades de Ramá e Betel, e dava conselho a todo o povo que a procurava. Tão sábia e boa era Débora que homens vinham de todas as partes da terra com as suas dificuldades e com as questões que surgiam entre eles. Ela governava a terra não pela força de um exército, nem por nomeação alguma, mas porque todos viam que o Espírito de Deus estava sobre ela.
Débora soube das aflições das tribos do norte sob o duro domínio dos cananeus. Sabia que vivia na terra de Naftali um homem valente, chamado Baraque, e enviou-lhe esta mensagem:
"Baraque, convoca as tribos de Israel que vivem perto de ti; levanta um exército e conduz os homens que se reunirem a ti até o monte Tabor. O Senhor me disse que entregará Sísera e o exército dos cananeus nas tuas mãos."
Mas Baraque teve medo de empreender sozinho essa grande obra de libertar o seu povo. Mandou a Débora esta resposta:
"Se fores comigo, irei; mas se não fores comigo, não irei."
"Irei contigo", disse Débora; "mas porque não confiaste em Deus e não foste quando Deus te chamou, a honra desta guerra não será tua, pois Deus entregará Sísera nas mãos de uma mulher."
Débora deixou o seu assento debaixo da palmeira e subiu a Quedes, onde Baraque morava. Juntos, Débora e Baraque fizeram um chamado aos homens do norte, e dez mil homens se reuniram, com as armas que puderam encontrar. Esse pequeno exército, tendo uma mulher por chefe, acampou no monte Tabor, que é uma de três montanhas alinhadas a leste de uma grande planície chamada "planície de Esdrelom", "planície de Jezreel" e "planície de Megido" — pois ela tem esses três nomes. Nessa planície, tanto nos tempos bíblicos como nos tempos posteriores à Bíblia, travaram-se muitas grandes batalhas. Por ela serpenteia o ribeiro Quisom, que em certas estações, depois de chuvas fortes, se transforma num rio espumante e impetuoso.
Do seu acampamento no alto do monte Tabor, o pequeno exército de Israel podia ver lá embaixo o grande exército dos cananeus, com as suas muitas tendas, os seus cavalos e carros, e o seu general, Sísera. Mas Débora não teve medo. Ela disse a Baraque:
"Desce a montanha com todos os teus homens e luta contra os cananeus. O Senhor irá adiante de ti, e ele entregará Sísera e o seu exército na tua mão."
Então Baraque tocou uma trombeta e chamou os seus homens. Eles desceram correndo a encosta do monte Tabor e lançaram-se sobre os inimigos. Os cananeus foram apanhados tão de surpresa que não tiveram tempo de dispor os seus carros. Apavorados, fugiram, pisoteando uns aos outros — carros, cavalos e homens numa fuga desordenada.
E o Senhor ajudou os israelitas; pois naquele tempo o ribeiro Quisom estava transbordando como um rio, e os cananeus atiraram-se nele, uns atrás dos outros. Enquanto muitos morriam na batalha, muitos também se afogavam no rio.
Sísera, o general dos cananeus, viu que a batalha se voltara contra ele e que tudo estava perdido. Saltou do seu carro e fugiu a pé. Na borda da planície encontrou uma tenda isolada, e correu para ela em busca de abrigo e esconderijo.
Era a tenda de um homem chamado Héber, e a mulher de Héber, Jael, estava diante dela. Ela conhecia Sísera e lhe disse: "Entra, meu senhor; entra na tenda; não tenhas medo."
Sísera entrou na tenda, e Jael o cobriu com uma manta, para que nenhum inimigo o encontrasse. Sísera lhe disse: "Tenho muita sede; podes dar-me um pouco de água para beber?"
Em vez de água, ela trouxe um odre de leite e lhe deu de beber; e então Sísera deitou-se para dormir, pois estava muito cansado da batalha e da fuga. Enquanto ele dormia profundamente, Jael entrou de mansinho na tenda, com uma estaca de tenda e um martelo na mão. Colocou a ponta da estaca do lado da cabeça dele, perto do ouvido, e com o martelo deu golpe após golpe, cravando-a até atravessar-lhe a cabeça e penetrar no chão debaixo dela. Depois de um breve estremecimento, Sísera estava morto, e ela deixou o corpo estendido no chão.
Pouco depois, Jael viu Baraque, o chefe do exército israelita, aproximando-se da tenda. Saiu ao seu encontro e disse: "Vem comigo, e eu te mostrarei o homem que procuras."
Ela levantou a cortina da tenda e conduziu Baraque para dentro; e ali ele viu, morto no chão, o poderoso Sísera, que apenas um dia antes comandava o exército dos cananeus.
Foi terrível o ato que Jael praticou. Nós o chamaríamos de traição e assassinato; mas era tão amargo o ódio entre israelitas e cananeus naquele tempo, que todo o povo deu grande honra a Jael por causa dele, pois com aquele ato ela libertou o povo do rei que vinha oprimindo Israel. Depois disso a terra teve descanso por muitos anos.
Débora, a juíza, compôs um grande cântico sobre essa vitória. Eis alguns versos dele:
> "Porque os chefes se puseram à frente em Israel, > porque o povo se ofereceu voluntariamente, > bendizei ao Senhor. > Ouvi, ó reis; dai ouvidos, ó príncipes; > eu, eu mesma cantarei ao Senhor; > cantarei louvores ao Senhor, o Deus de Israel. > . . . . . . . . > Vieram os reis e pelejaram. > Pelejaram então os reis de Canaã, > em Taanaque, junto às águas de Megido. > Não levaram ganho de prata. > Desde os céus pelejaram, > as estrelas, desde os seus cursos, pelejaram contra Sísera. > O rio Quisom os arrastou, > aquele antigo rio, o rio Quisom. > Ó minha alma, marcha com força! > . . . . . . . . > Bendita entre as mulheres seja Jael, > mulher de Héber, o queneu; > bendita seja entre as mulheres que habitam em tendas. > Ele pediu água, e ela lhe deu leite; > em taça de príncipes lhe ofereceu nata. > . . . . . . . . > Aos pés dela ele se curvou, caiu, ficou estendido; > aos pés dela se curvou, caiu. > Onde se curvou, ali caiu morto. > Pela janela uma mulher olhava e clamava, > a mãe de Sísera clamava através da grade: > Por que tarda tanto o seu carro em vir? > Por que se demoram as rodas do seu carro? > . . . . . . . . > Assim pereçam todos os teus inimigos, ó Senhor; > mas sejam os que o amam como o sol, > quando se levanta no seu esplendor."