Depois de Jefté governaram, um após outro, três juízes, chamados Ibsã, Elom e Abdom. Nenhum deles foi homem de guerra, e nos seus dias a terra ficou tranquila.
Mas o povo de Israel começou de novo a adorar ídolos; e, como castigo, Deus permitiu que caíssem mais uma vez sob o poder dos seus inimigos. A sétima opressão, que agora caiu sobre Israel, foi de longe a mais dura, a mais longa e a mais espalhada de todas, pois abrangeu todas as tribos. Veio dos filisteus, um povo forte e guerreiro, que vivia a oeste de Israel, na planície junto ao Grande Mar. Eles adoravam um ídolo chamado Dagom, feito em forma de cabeça de peixe sobre corpo de homem.
Esse povo, os filisteus, enviou os seus exércitos da planície junto ao mar para as montanhas de Israel, e invadiu toda a terra.
Tiraram dos israelitas todas as suas espadas e lanças, para que não pudessem lutar; e roubaram da sua terra todas as colheitas, de modo que o povo sofria por falta de alimento. E, como antes, os israelitas, na sua aflição, clamaram ao Senhor, e o Senhor ouviu a sua oração.
Na terra da tribo de Dã, que ficava ao lado do país dos filisteus, vivia um homem chamado Manoá. Um dia um anjo veio à sua mulher e disse: "Terás um filho; e quando ele crescer, começará a salvar Israel da mão dos filisteus. Mas o teu filho nunca deverá beber vinho nem bebida forte, enquanto viver. E os seus cabelos deverão crescer longos e nunca ser cortados, porque ele será nazireu, sob voto ao Senhor."
Quando uma criança era consagrada especialmente a Deus, ou quando um homem se dedicava a alguma obra para Deus, era-lhe proibido beber vinho e, como sinal, deixava-se o cabelo crescer enquanto durasse o voto ou promessa feita a Deus. Uma pessoa assim chamava-se nazireu, palavra que significa "aquele que tem um voto"; e o filho de Manoá seria nazireu, e estaria sob voto, por toda a vida.
A criança nasceu e recebeu o nome de Sansão. Cresceu e tornou-se o homem mais forte de que a Bíblia fala. Sansão não foi um general, como Gideão ou Jefté, que convocasse o seu povo e o conduzisse à guerra. Fez muito para libertar o seu povo; mas tudo o que fez foi pela sua própria força, sem ajuda de outros homens.
Quando Sansão se tornou moço, desceu a Timna, na terra dos filisteus. Ali viu uma jovem filisteia a quem amou, e quis tê-la por esposa. O pai e a mãe não ficaram contentes de que ele se casasse entre os inimigos do seu próprio povo. Não sabiam que Deus faria desse casamento o meio de trazer dano aos filisteus e de ajudar os israelitas.
Quando Sansão descia a Timna para ver essa jovem, um leão novo e faminto saiu da montanha, rosnando e rugindo. Sansão agarrou o leão e o despedaçou com a mesma facilidade com que outro homem teria matado um cabritinho; e depois seguiu o seu caminho. Fez a sua visita e voltou para casa, mas a ninguém disse nada sobre o leão.
Passado algum tempo, Sansão foi de novo a Timna, para o seu casamento com a filisteia. No caminho, parou para olhar o leão morto; e no corpo dele encontrou um enxame de abelhas, e o mel que elas haviam feito. Tirou um pouco do mel e o foi comendo enquanto caminhava; mas não contou a ninguém.
Na festa de casamento, que durou uma semana inteira, havia muitos jovens filisteus; e eles se divertiam uns aos outros com perguntas e enigmas.
"Vou propor-vos um enigma", disse Sansão. "Se o decifrardes durante a festa, eu vos darei trinta mudas de roupa. E se não puderdes decifrá-lo, vós me dareis trinta mudas de roupa."
"Ouçamos o teu enigma", disseram eles. E este foi o enigma de Sansão para os jovens filisteus decifrarem:
> "Do comedor saiu comida, > e do forte saiu doçura."
Eles não conseguiram achar a resposta, embora a procurassem todo aquele dia e os dois dias seguintes. E por fim foram à mulher de Sansão e lhe disseram: "Persuade o teu marido a contar-te a resposta. Se não a descobrires, poremos fogo na tua casa e te queimaremos, a ti e a todo o teu povo."
E a mulher de Sansão insistiu com ele para que lhe contasse a resposta. Chorou e suplicou, dizendo: "Se realmente me amasses, não guardarias de mim este segredo."
Por fim Sansão cedeu, e contou à mulher como havia matado o leão e depois encontrado o mel no seu corpo. Ela contou ao seu povo, e pouco antes do fim da festa eles vieram a Sansão com a resposta. Disseram: "Que coisa é mais doce do que o mel? E que coisa é mais forte do que o leão?"
E Sansão lhes respondeu: "Se não tivésseis lavrado com a minha novilha, não teríeis decifrado o meu enigma."
Pela sua "novilha" — que é uma vaca nova — Sansão queria dizer, é claro, a sua mulher. Então Sansão teve de dar-lhes as trinta mudas de roupa. Saiu entre os filisteus, matou os primeiros trinta homens que encontrou, tirou-lhes as roupas e as deu aos convidados da festa. Mas tudo isso deixou Sansão muito irado. Abandonou a sua nova esposa e voltou para a casa do pai. Então os pais da sua mulher a deram a outro homem.
Mas depois de algum tempo a ira de Sansão passou, e ele foi outra vez a Timna ver a sua mulher. O pai dela, porém, lhe disse: "Foste embora irado, e supus que já não te importavas com ela. Dei-a a outro homem, e agora ela é mulher dele. Mas aqui está a sua irmã mais nova; podes tomá-la por esposa em seu lugar."
Mas Sansão não quis a irmã da sua mulher. Saiu muito irado, decidido a fazer mal aos filisteus, porque o haviam enganado. Apanhou todas as raposas selvagens que pôde encontrar, até juntar trezentas. Depois amarrou-as duas a duas, pelas caudas; e entre cada par de raposas atou às caudas um pedaço de madeira seca, ao qual pôs fogo. Essas raposas com tochas nas caudas ele soltou pelos campos dos filisteus, quando o trigo estava maduro. Elas correram desvairadas pelos campos, atearam fogo ao trigo e o queimaram; e com o trigo, as oliveiras dos campos.
Quando os filisteus viram as suas colheitas destruídas, disseram: "Quem fez isto?"
E o povo respondeu: "Foi Sansão, porque a sua mulher foi dada pelo pai dela a outro homem."
Os filisteus consideraram o sogro de Sansão o causador da sua perda; e vieram, puseram fogo na casa dele e queimaram o homem e a filha com quem Sansão se casara. Então Sansão desceu de novo e, sozinho, lutou contra uma tropa de filisteus e matou a todos, como castigo por terem queimado a sua mulher.
Depois disso Sansão foi morar num vão de uma rocha fendida, chamada rocha de Etã. Os filisteus subiram com um grande exército e invadiram os campos da terra da tribo de Judá.
"Por que vindes contra nós?", perguntaram os homens de Judá. "Que quereis de nós?" "Viemos", disseram eles, "para amarrar Sansão, e fazer com ele o que ele fez ao nosso povo."
Os homens de Judá disseram a Sansão: "Não sabes que os filisteus dominam sobre nós? Por que os provocas, matando a sua gente? Vês que sofremos por causa das tuas façanhas. Agora temos de amarrar-te e entregar-te aos filisteus; senão eles nos arruinarão a todos."
E Sansão disse: "Deixarei que me amarreis, se prometerdes que vós mesmos não me matareis, mas apenas me entregareis são e salvo nas mãos dos filisteus."
Fizeram a promessa; e Sansão entregou-se a eles e deixou que o amarrassem bem com cordas novas. Os filisteus gritaram de alegria ao ver o seu inimigo trazido até eles, conduzido amarrado pelo seu próprio povo. Mal sabiam o que estava para acontecer. Pois assim que Sansão chegou entre eles, rompeu as amarras como se fossem fios leves; e apanhou do chão a queixada de um jumento, e com ela golpeou à direita e à esquerda, como se fosse uma espada. Matou quase mil filisteus com essa arma estranha. Depois compôs sobre isso uma canção, assim:
> "Com a queixada de um jumento, montões sobre montões, > com a queixada de um jumento matei mil homens."
Depois disso Sansão desceu à principal cidade dos filisteus, chamada Gaza. Era uma cidade grande e, como todas as grandes cidades, era cercada por uma alta muralha. Quando os homens de Gaza descobriram Sansão na sua cidade, fecharam as portas, pensando que agora poderiam mantê-lo prisioneiro. Mas, durante a noite, Sansão levantou-se, foi até as portas, arrancou do chão os seus postes e pôs as portas com os postes sobre os ombros. Carregou-as por vinte milhas e as deixou no alto de uma colina não longe da cidade de Hebrom.
Depois disso Sansão viu outra mulher entre os filisteus, e a amou. O nome dessa mulher era Dalila. Os chefes dos filisteus vieram a Dalila e lhe disseram:
"Descobre, se puderes, o que é que torna Sansão tão forte, e conta-nos. Se nos ajudares a dominá-lo, de modo que o tenhamos em nosso poder, te daremos uma grande soma de dinheiro."
E Dalila insistiu e suplicou a Sansão que lhe contasse o que o tornava tão forte. Sansão lhe disse: "Se me amarrarem com sete vergas verdes de árvore, então não serei mais forte."
Trouxeram-lhe sete vergas verdes, como as de um salgueiro; e ela amarrou Sansão com elas enquanto ele dormia. Depois gritou-lhe: "Acorda, Sansão, os filisteus vêm contra ti!"
E Sansão levantou-se e quebrou as vergas com a mesma facilidade com que se quebram gravetos chamuscados no fogo, e livrou-se sem esforço.
E Dalila tentou de novo descobrir o seu segredo. Disse: "Estás apenas zombando de mim. Agora dize-me de verdade como podes ser amarrado."
E Sansão disse: "Que me amarrem com cordas novas, que nunca tenham sido usadas; e então não poderei escapar."
Enquanto Sansão dormia outra vez, Dalila o amarrou com cordas novas. Depois gritou como antes: "Levanta-te, Sansão, que os filisteus estão chegando!" E quando Sansão se levantou, as cordas se romperam como se fossem linha. E Dalila insistiu de novo para que lhe contasse; e ele disse:
"Vês que o meu cabelo comprido está em sete tranças. Tece-as no tear, como se fossem os fios de um pano."
Então, enquanto ele dormia, ela teceu o seu cabelo no tear e o prendeu com um grande pino à armação do tear. Mas quando ele acordou, levantou-se e levou consigo o pino e a viga do tear, pois estava tão forte como antes.
E Dalila disse: "Como podes dizer que me amas, se me enganas e guardas de mim o teu segredo?" E suplicou-lhe dia após dia, até que por fim ele cedeu e lhe contou o verdadeiro segredo da sua força. Disse ele:
"Sou nazireu, sob voto ao Senhor de não beber vinho e de não deixar cortar o meu cabelo. Se eu deixasse cortar o meu cabelo, o Senhor me abandonaria, a minha força se iria de mim, e eu ficaria como os outros homens."
Então Dalila soube que finalmente havia encontrado a verdade. Mandou chamar os chefes dos filisteus, dizendo: "Subi ainda esta vez, e tereis o vosso inimigo; pois agora tenho certeza de que ele me contou tudo o que está no seu coração."
Então, enquanto os filisteus vigiavam do lado de fora, Dalila deixou Sansão adormecer com a cabeça sobre os seus joelhos. Enquanto ele dormia profundamente, tomaram uma navalha e rasparam todo o seu cabelo. Depois ela gritou como das outras vezes: "Levanta-te, Sansão; os filisteus vêm sobre ti!"
Ele acordou e levantou-se, esperando achar-se forte como antes; pois a princípio não sabia que o seu longo cabelo fora cortado. Mas havia quebrado o seu voto ao Senhor, e o Senhor o havia deixado. Estava agora tão fraco como os outros homens, e indefeso nas mãos dos seus inimigos. Os filisteus facilmente o fizeram prisioneiro; e, para que nunca mais lhes fizesse mal, arrancaram-lhe os olhos. Depois o acorrentaram com grilhões e o mandaram para a prisão em Gaza. E na prisão fizeram Sansão girar uma pesada mó para moer grão, como se fosse um animal de carga.
Mas enquanto Sansão estava na prisão, o seu cabelo cresceu de novo; e com o cabelo a sua força voltou, pois Sansão renovou o seu voto ao Senhor.
Um dia os filisteus celebraram uma grande festa no templo do seu deus-peixe Dagom. Pois diziam: "O nosso deus entregou nas nossas mãos Sansão, o nosso inimigo. Alegremo-nos juntos e louvemos Dagom."
E o templo estava apinhado de gente, e o telhado sobre ele também estava repleto, com mais de três mil homens e mulheres. Mandaram buscar Sansão, para se divertirem à sua custa; e Sansão foi levado ao pátio do templo, diante de todo o povo, para entretê-los. Depois de algum tempo, Sansão disse ao menino que o guiava:
"Leva-me até a frente do templo, para que eu me encoste a uma das colunas e me apoie nela."
E enquanto Sansão estava de pé entre duas das colunas, orou ao Senhor, o Deus de Israel, e disse: "Ó Senhor Deus, lembra-te de mim, eu te suplico, e dá-me força só esta vez, ó Deus; e ajuda-me, para que eu me vingue dos filisteus pelos meus dois olhos!"
Então passou um braço em volta da coluna de um lado, e o outro braço em volta da coluna do outro lado; e disse: "Morra eu com os filisteus."
E inclinou-se para a frente com toda a sua força, e arrastou consigo as colunas, derrubando o telhado, e tudo o que estava sobre ele, sobre os que estavam embaixo. O próprio Sansão ficou entre os mortos; mas na sua morte matou mais filisteus do que havia matado durante a vida.
Então, no terror que caiu sobre os filisteus, os homens da tribo de Sansão desceram, encontraram o seu corpo e o sepultaram na sua própria terra. Depois disso, passaram-se anos antes que os filisteus tentassem de novo dominar os israelitas.
Sansão fez muito para libertar o seu povo, mas poderia ter feito muito mais, se tivesse conduzido o seu povo, em vez de confiar apenas na própria força; e se tivesse vivido com mais seriedade, sem praticar os seus feitos como quem faz travessuras e zomba dos inimigos. Havia faltas profundas em Sansão; mas, no fim, ele buscou a ajuda de Deus e a encontrou; e Deus usou Sansão para começar a libertar o seu povo.
A tribo a que Sansão pertencia era a tribo de Dã, um povo que vivia na borda da região montanhosa, entre as montanhas e as planícies do litoral, que eram o lar dos filisteus. A terra da tribo de Dã ficava a noroeste de Judá, a sudoeste de Efraim e a oeste de Benjamim. Sansão governou a sua própria tribo, mas pouco as outras. Contudo, os seus feitos de coragem e força impediram os filisteus, durante a sua vida, de dominar as terras de Judá e de Benjamim; e assim Sansão ajudou a salvar Israel dos seus inimigos.