No tempo dos juízes de Israel, um homem chamado Elimeleque vivia na cidade de Belém, na tribo de Judá, cerca de dez quilômetros ao sul de Jerusalém. Sua esposa chamava-se Noemi, e seus dois filhos eram Malom e Quiliom. Durante alguns anos as colheitas foram fracas, e o alimento escasseou em Judá; e Elimeleque, com a família, foi morar na terra de Moabe, que ficava a leste do mar Morto, assim como Judá ficava a oeste.
Ali permaneceram dez anos, e nesse tempo Elimeleque morreu. Seus dois filhos casaram-se com mulheres da terra de Moabe, uma chamada Orfa, a outra chamada Rute. Mas os dois moços também morreram na terra de Moabe, de modo que Noemi e suas duas noras ficaram todas viúvas. Então Noemi se levantou para voltar à sua própria terra e à sua cidade de Belém. Suas duas noras a amavam, e ambas teriam ido com ela, embora a terra de Judá fosse para elas uma terra estranha, pois eram do povo moabita.
Noemi lhes disse: "Voltai, minhas filhas, cada uma para a casa de sua mãe. Que o Senhor vos trate com bondade, como fostes bondosas para com vossos maridos e para comigo. Que o Senhor conceda a cada uma de vós encontrar ainda outro esposo e um lar feliz." Então Noemi as beijou em despedida, e as três mulheres choraram juntas. As duas jovens viúvas lhe disseram: "Tens sido uma boa mãe para nós; iremos contigo e viveremos entre o teu povo."
"Não, não", disse Noemi. "Sois jovens, e eu sou velha. Voltai e sede felizes entre o vosso próprio povo."
Então Orfa beijou Noemi e voltou para o seu povo; Rute, porém, não quis deixá-la. Disse ela: "Não me peças que te deixe, porque jamais te deixarei. Aonde fores, irei eu; onde viveres, viverei eu; o teu povo será o meu povo, e o teu Deus será o meu Deus. Onde morreres, ali morrerei eu, e ali serei sepultada. Nada, senão a própria morte, há de separar-nos."
Quando Noemi viu que Rute estava firme em seu propósito, deixou de insistir com ela; e as duas mulheres seguiram juntas. Contornaram o mar Morto, atravessaram o rio Jordão, subiram os montes de Judá e chegaram a Belém.
Noemi estivera ausente de Belém por dez anos, mas todas as suas amigas se alegraram em revê-la. Diziam: "É esta Noemi, que conhecemos anos atrás?" Ora, o nome Noemi quer dizer "agradável". E Noemi respondeu:
"Não me chameis Noemi; chamai-me Mara, porque o Senhor tornou amarga a minha vida. Parti cheia, com meu marido e meus dois filhos; agora volto vazia, sem eles. Não me chameis 'Agradável'; chamai-me 'Amarga'." O nome "Mara", pelo qual Noemi queria ser chamada, significa "amarga". Mas Noemi aprendeu mais tarde que "Agradável" era, afinal, o nome certo para ela.
Vivia então em Belém um homem muito rico chamado Boaz. Possuía grandes campos, fartos em suas colheitas, e era parente da família de Elimeleque, o marido de Noemi, que havia morrido.
Era costume em Israel, quando se ceifava o grão, não recolher todas as espigas, mas deixar algumas para os pobres, que vinham atrás dos ceifeiros com suas foices e apanhavam o que ficava para trás. Quando Noemi e Rute chegaram a Belém, era o tempo da colheita da cevada; e Rute saiu aos campos para respigar o grão que os ceifeiros haviam deixado. E aconteceu que ela foi respigar justamente no campo que pertencia a Boaz, aquele homem rico.
Boaz saiu da cidade para ver os seus homens na ceifa e lhes disse: "O Senhor seja convosco"; e eles lhe responderam: "O Senhor te abençoe." E Boaz perguntou ao chefe dos ceifeiros: "Quem é aquela jovem que vejo respigando no campo?"
O homem respondeu: "É a jovem da terra de Moabe, que veio com Noemi. Pediu licença para respigar atrás dos ceifeiros, e está aqui recolhendo espigas desde ontem."
Então Boaz disse a Rute: "Escuta-me, minha filha. Não vás a nenhum outro campo; fica aqui com as minhas moças. Ninguém te fará mal; e, quando tiveres sede, vai beber das nossas vasilhas de água."
Rute inclinou-se diante de Boaz e lhe agradeceu a bondade, tanto mais preciosa porque ela era uma estrangeira em Israel. Boaz disse:
"Ouvi contar como tens sido fiel à tua sogra, Noemi, deixando a tua própria terra e vindo com ela para esta terra. Que o Senhor, sob cujas asas vieste abrigar-te, te dê a recompensa!" E ao meio-dia, quando se assentaram para descansar e comer, Boaz repartiu com ela do alimento. E disse aos ceifeiros:
"Quando estiverdes ceifando, deixai algumas espigas para ela; e deixai cair alguns punhados dos feixes, onde ela possa recolhê-los."
Naquela tarde, Rute mostrou a Noemi quanto havia respigado e falou-lhe do homem rico, Boaz, que fora tão bondoso com ela. E Noemi disse: "Esse homem é parente chegado nosso. Fica nos campos dele enquanto durar a colheita." E assim Rute respigou nos campos de Boaz até que toda a colheita foi recolhida.
No fim da colheita, Boaz deu uma festa na eira. E depois da festa, a conselho de Noemi, Rute foi ter com ele e lhe disse: "Tu és parente próximo do meu marido e de seu pai, Elimeleque. Não queres fazer-nos o bem por amor dele?"
E quando Boaz viu Rute, amou-a; e pouco depois a tomou por esposa. Noemi e Rute foram viver em sua casa, de modo que a vida de Noemi já não era amarga, mas agradável. E Boaz e Rute tiveram um filho, a quem deram o nome de Obede; mais tarde Obede teve um filho chamado Jessé; e Jessé foi o pai de Davi, o menino pastor que se tornou rei. Assim Rute, a jovem de Moabe, que escolheu o povo e o Deus de Israel, veio a ser mãe de reis.