Quando a arca de Deus foi tomada e o Tabernáculo caiu em ruínas, Samuel ainda era menino. Ele voltou para a casa de seu pai em Ramá, que ficava nas montanhas, a uns seis quilômetros ao norte de Jerusalém. Dali em diante, Ramá foi o lar de Samuel por toda a sua vida.
Durante alguns anos, enquanto Samuel crescia, não houve juiz em Israel, nem chefe sobre as tribos. Os filisteus dominavam o povo e lhe tomavam grande parte das colheitas, das ovelhas e dos bois. Muitas vezes, em sua necessidade, o povo se lembrava da arca do Senhor, guardada sozinha naquela casa em Quiriate-Jearim. E os olhos de todos se voltavam para o jovem Samuel, que crescia em Ramá. Pois Samuel andava com Deus, e Deus falava com Samuel, como havia falado com Abraão, com Moisés e com Josué.
Logo que Samuel se tornou homem, começou a percorrer as tribos e a levar a todos, por toda parte, a palavra de Deus. E era isto o que Samuel dizia:
"Se de fato voltardes de todo o coração para o Senhor, o Deus de Israel, lançai fora os deuses falsos, as imagens de Baal e de Aserá, buscai somente o Senhor e servi a ele; e então Deus vos libertará dos filisteus."
Depois das palavras de Samuel, o povo começou a derrubar os ídolos e a orar ao Deus de Israel. E Samuel convocou o povo de toda a terra para reunir-se num só lugar, tantos quantos pudessem vir. Encontraram-se num lugar chamado Mispá, nas montanhas de Benjamim, não longe de Jerusalém.
Ali Samuel orou pelo povo e pediu a Deus que perdoasse o pecado deles, por se terem desviado de Deus para os ídolos. Eles confessaram as suas más obras e fizeram a promessa solene de servir ao Senhor, e somente ao Senhor.
Os filisteus, na planície junto ao Grande Mar, souberam dessa reunião. Temendo que os israelitas estivessem prestes a sacudir o seu domínio, subiram com um exército para dispersar os israelitas, mandá-los de volta às suas casas e mantê-los sob o jugo dos filisteus.
Quando os israelitas viram os filisteus vindo contra eles, ficaram muito alarmados. Os filisteus eram homens de guerra, com espadas, escudos e lanças, treinados no combate; ao passo que os homens de Israel não tinham visto guerra. Fazia mais de vinte anos que seus pais haviam lutado contra os filisteus e por duas vezes tinham sido derrotados. Não tinham armas nem treinamento, e sentiam-se indefesos diante de seus inimigos. Voltaram-se para Samuel, como filhos que se voltam para um pai, e lhe disseram: "Não cesses de orar e de clamar ao Senhor por nós, para que ele nos salve dos filisteus."
Então Samuel tomou um cordeiro e o ofereceu ao Senhor em holocausto pelo povo, e orou com grande fervor para que Deus socorresse Israel; e Deus ouviu a sua oração.
Exatamente quando os filisteus se lançavam sobre os indefesos homens de Israel, veio uma grande tempestade, com trovões que rolavam e relâmpagos que fuzilavam. Tempestades assim não são comuns naquela terra, e esta foi tão violenta que apavorou os filisteus. Em súbito terror, largaram as lanças e as espadas e fugiram.
Os homens de Israel apanharam essas armas, juntaram as outras que puderam encontrar, perseguiram os filisteus, mataram muitos deles e alcançaram sobre eles uma grande vitória. Com esse único golpe, o poder dos filisteus foi quebrado, e eles perderam o domínio sobre Israel. E aconteceu que o lugar onde Samuel ganhou essa grande vitória era o mesmo lugar onde os israelitas tinham sido derrotados duas vezes, o lugar onde a arca de Deus fora tomada, como lemos na história anterior. No campo de batalha Samuel ergueu uma grande pedra para marcar o lugar, e deu-lhe o nome de Ebenézer, que significa "Pedra do Socorro".
"Porque", disse Samuel, "foi aqui que o Senhor nos socorreu."
Depois dessa derrota, os filisteus não tornaram a entrar na terra de Israel durante os anos em que Samuel governou como juiz sobre as tribos. Ele foi o décimo quinto dos juízes, e o último. Percorria toda a terra, e de todos os lugares o povo lhe trazia suas questões e suas desavenças para que Samuel as julgasse, pois sabiam que era um homem bom e que faria justiça entre um homem e outro. De cada viagem voltava a Ramá. Ali era o seu lar, e ali edificou um altar ao Senhor.
Samuel viveu muitos anos e governou o povo com sabedoria, de modo que todos confiavam nele. Ensinou os israelitas a adorar o Senhor Deus e a lançar fora os ídolos, aos quais tantos deles haviam servido. Enquanto Samuel governou, houve paz em todas as tribos, e nenhum inimigo veio das terras vizinhas fazer mal aos israelitas. Mas os filisteus ainda eram muito fortes e mantinham domínio sobre algumas partes de Israel próximas de sua terra, embora não houvesse guerra. Samuel não era homem de guerra, como Gideão ou Jefté, mas homem de paz; e o seu governo foi tranquilo, ainda que firme.