O povo esperava que, tendo um rei para conduzi-lo na guerra, pudesse quebrar o poder dos filisteus, que ainda dominavam grande parte da terra. Mas, depois de Saul reinar dois anos, os filisteus pareciam mais fortes do que nunca. Ocupavam muitas cidades muradas sobre as colinas, e delas seus guerreiros saíam para saquear as aldeias e roubar as colheitas dos lavradores, de modo que os homens de Israel viviam na pobreza e em grande temor.
Os filisteus não permitiam que os israelitas trabalhassem o ferro, para impedi-los de fabricar espadas e lanças para si. Quando um homem queria afiar a relha de ferro do seu arado, ou mandar fazer uma nova, tinha de recorrer aos filisteus para o serviço. Assim, quando Saul reuniu um exército, quase nenhum dos homens conseguiu arranjar espada ou lança; e Saul e seu filho Jônatas eram os únicos que usavam armaduras para se proteger dos dardos do inimigo.
Saul juntou um pequeno exército, do qual uma parte estava com ele em Micmás, e outra parte com seu filho Jônatas em Gibeá, oito quilômetros ao sul. Jônatas, que era um jovem muito valente, conduziu a sua tropa contra os filisteus em Geba, a meio caminho entre Gibeá e Micmás, e tomou-lhes aquele lugar. A notícia desse combate correu pela terra, e os filisteus subiram as montanhas com um grande exército, com carros de guerra e cavaleiros. Saul tocou a trombeta e convocou os israelitas ao velho acampamento de Gilgal, no vale do Jordão; e muitos vieram, mas vieram tremendo de medo dos filisteus.
Samuel havia dito a Saul que não partisse de Gilgal antes que ele viesse oferecer um sacrifício e invocar a Deus. Mas Samuel demorava a chegar, e Saul foi ficando impaciente, pois via seus homens se dispersarem. Por fim, Saul não pôde esperar mais. Ele mesmo ofereceu o sacrifício, embora não fosse sacerdote. Mas, enquanto a oferta ainda ardia sobre o altar, Samuel chegou. E disse a Saul: "Que é isto que fizeste?"
E Saul respondeu: "Vi que meus homens estavam se dispersando, e temi que o inimigo descesse sobre mim; por isso eu mesmo ofereci o sacrifício, já que não estavas aqui."
"Fizeste mal", disse Samuel. "Não guardaste os mandamentos de Deus. Se tivesses obedecido e confiado no Senhor, ele te teria guardado em segurança. Mas agora Deus achará outro homem que faça a sua vontade, um homem segundo o seu coração; e Deus, no seu próprio tempo, tirará de ti o reino e o dará a ele."
E Samuel deixou o acampamento e foi embora, apartando-se de Saul. Saul conduziu seus homens, apenas seiscentos, montanha acima até Geba, o lugar que Jônatas havia tomado. Do outro lado do vale, perto de Micmás, estava o exército dos filisteus, bem à vista. Certa manhã, Jônatas e o moço que o servia desceram a encosta em direção ao acampamento dos filisteus. Esse servo de Jônatas era chamado seu escudeiro, porque carregava o escudo, a espada e a lança de Jônatas, para tê-los prontos quando necessário.
Jônatas podia ver os filisteus logo do outro lado do vale. Disse ele: "Se os filisteus nos disserem: 'Subi até aqui', iremos e lutaremos contra eles, ainda que estejamos sozinhos nós dois, pois tomaremos isso como sinal de que Deus nos ajudará."
Os filisteus viram os dois israelitas de pé sobre uma rocha do outro lado do vale e gritaram-lhes: "Subi até aqui, e vos mostraremos uma coisa."
Então Jônatas disse ao seu escudeiro: "Vem, porque o Senhor os entregou em nossas mãos."
Atravessaram o vale e caíram de surpresa sobre os filisteus, derrubando-os à direita e à esquerda, sem lhes dar um instante de aviso. Alguns tombaram, outros fugiram; e logo, quando os companheiros os viram correndo, também se apavoraram, e todos começaram a correr de um lado para outro. Alguns lutavam contra os que fugiam; e em poucos minutos os israelitas, da colina do outro lado do vale, podiam ver os filisteus lutando e matando-se uns aos outros, os homens correndo em todas as direções e o seu exército se desfazendo.
Então Saul e seus homens atravessaram o vale e entraram na luta; e outros israelitas que estavam no acampamento dos filisteus, sob o domínio deles, levantaram-se contra eles; e as tribos das redondezas saíram e os perseguiram na fuga. Assim, naquele dia, ganhou-se uma grande vitória sobre os filisteus.
Mas um grande erro foi cometido pelo rei Saul no dia da vitória. Temendo que seus homens deixassem de perseguir os filisteus para se apoderar dos despojos do acampamento, quando a batalha começou o rei Saul disse: "Caia a maldição de Deus sobre qualquer homem que tomar alimento antes do anoitecer. Quem comer qualquer coisa antes que o sol se ponha morrerá, para que não haja demora em destruir os nossos inimigos."
Assim, naquele dia, ninguém comeu coisa alguma até a tarde, e todos estavam fracos e desfalecidos de fome. Estavam tão exaustos que não puderam perseguir mais os filisteus, e muitos dos filisteus escaparam. Naquela tarde, enquanto empurravam os filisteus através de um bosque, encontraram mel nas árvores; mas ninguém o provou, por causa do juramento de Saul diante do Senhor, de que quem tomasse um bocado de alimento seria morto.
Mas Jônatas não tinha ouvido a ordem de seu pai. Tomou um pouco de mel e sentiu-se fortalecido. Disseram a Jônatas: "Teu pai ordenou a todo o povo que não tomasse alimento algum até o pôr do sol, dizendo: 'Venha a maldição de Deus sobre quem comer qualquer coisa antes do anoitecer.'" Quando Jônatas soube da palavra de seu pai, disse: "Meu pai trouxe grande aflição sobre todos nós; pois, se os homens tivessem podido comer alguma coisa, estariam mais fortes para lutar e ferir os seus inimigos."
Naquela noite Saul descobriu que Jônatas havia quebrado a sua ordem, embora sem o saber na hora. E disse: "Fiz um juramento diante do Senhor; e agora, Jônatas, tens de morrer, ainda que sejas meu próprio filho."
Mas o povo não consentiu que Jônatas fosse morto, nem mesmo para cumprir o juramento de Saul. Disseram: "Morrerá Jônatas, depois de ter feito tão grande feito, de ter ganhado a vitória e salvado o povo? Nem um fio de cabelo da sua cabeça cairá, porque foi a obra de Deus que ele fez neste dia!"
E livraram Jônatas da mão do rei e o puseram em liberdade. Uma grande vitória fora conquistada; mas Saul já havia mostrado que não era apto para governar, porque era precipitado demais em seus atos e palavras, e porque não era cuidadoso em obedecer ao mandamento de Deus.
Depois dessa batalha, os filisteus permaneceram por um tempo em sua própria terra, junto ao Grande Mar, e não incomodaram os israelitas nas montanhas.