Quando Samuel disse a Saul que o Senhor lhe tiraria o reino, não queria dizer que Saul perderia o reino imediatamente. Ele já não era o rei de Deus; e, assim que fosse achado o homem certo aos olhos de Deus, e fosse preparado para o seu dever de rei, então Deus tiraria o poder de Saul e o daria ao homem que Deus havia escolhido. Mas muitos anos se passaram antes que tudo isso acontecesse.
Samuel, que ajudara a escolher Saul como rei, ainda o amava, e sentia grande pesar ao ver Saul desobedecer aos mandamentos de Deus. Chorava muito e lamentava por Saul. Mas o Senhor disse a Samuel:
"Não chores nem lamentes mais por Saul, porque eu o rejeitei como rei. Enche o chifre de azeite e vai a Belém de Judá. Procura ali um homem chamado Jessé, porque escolhi um rei dentre os seus filhos."
Mas Samuel sabia que Saul ficaria furioso se soubesse que Samuel havia designado outro homem como rei em seu lugar. Disse ao Senhor: "Como posso ir? Se Saul o souber, ele me matará."
Então o Senhor disse a Samuel: "Leva contigo uma novilha, e dize ao povo que vieste fazer uma oferta ao Senhor. E convida Jessé e seus filhos para o sacrifício. Eu te mostrarei o que fazer; e ungirás aquele que eu te indicar."
Samuel atravessou as montanhas, indo de Ramá para o sul até Belém, uns dezesseis quilômetros, conduzindo a novilha. Os chefes da cidade se assustaram com a sua chegada, pois temiam que ele tivesse vindo julgar o povo por alguma má ação. Mas Samuel disse: "Venho em paz, para fazer uma oferta e celebrar uma festa ao Senhor. Preparai-vos e vinde ao sacrifício."
E convidou Jessé e seus filhos para a cerimônia. Quando se aprontaram, vieram diante de Samuel. Ele olhou os filhos de Jessé com muita atenção. O mais velho chamava-se Eliabe; e era tão alto e de aparência tão nobre que Samuel pensou:
"Certamente este jovem deve ser aquele a quem Deus escolheu." Mas o Senhor disse a Samuel:
"Não olhes para o seu rosto, nem para a altura da sua estatura, porque não o escolhi. O homem julga pela aparência exterior, mas Deus olha para o coração."
Depois passou o segundo filho de Jessé, chamado Samá. E o Senhor disse: "Não escolhi este." Sete jovens vieram, e Samuel disse:
"Nenhum destes é o homem que Deus escolheu. São estes todos os teus filhos?"
"Há ainda um", disse Jessé. "O mais moço de todos. É um menino que está no campo, cuidando das ovelhas."
E Samuel disse:
"Manda buscá-lo, porque não nos sentaremos à mesa enquanto ele não vier." Passado algum tempo, o filho mais moço foi trazido. Seu nome era Davi, palavra que significa "amado", e era um belo menino, de talvez quinze anos, de faces coradas e olhos brilhantes.
Assim que o jovem Davi chegou, o Senhor disse a Samuel:
"Levanta-te; unge-o, porque é este o que escolhi."
Então Samuel derramou azeite sobre a cabeça de Davi, na presença de todos os seus irmãos. Mas ninguém sabia, naquele momento, que a unção significava que Davi seria o rei. Talvez pensassem que Davi fora escolhido para ser um profeta como Samuel.
Daquele dia em diante o Espírito do Senhor veio sobre Davi; e ele começou a dar sinais da grandeza que estava por vir. Voltou para as suas ovelhas nas encostas ao redor de Belém, mas Deus estava com ele. Davi cresceu forte e corajoso, sem medo das feras que rondavam e tentavam levar as suas ovelhas. Mais de uma vez lutou com leões e ursos, e os matou, quando arrebatavam os cordeiros do seu rebanho. E Davi, sozinho o dia inteiro, exercitava-se em atirar pedras com a funda, até conseguir acertar exatamente o ponto em que mirava. Quando girava a funda, sabia que a pedra iria ao lugar preciso contra o qual a lançava.
E, apesar de tão jovem, Davi pensava em Deus e orava a Deus. E Deus falava com Davi, e mostrava a Davi a sua vontade. E Davi era mais do que um pastor e um lutador contra feras. Tocava harpa, fazia músicas e cantava canções sobre a bondade de Deus para com o seu povo.
Uma dessas canções de Davi todos nós já ouvimos, e talvez a conheçamos tão bem que podemos repeti-la. Chama-se "O Salmo do Pastor", e começa com as palavras:
> "O Senhor é o meu pastor; nada me faltará. > Ele me faz repousar em verdes pastos; > guia-me mansamente a águas tranquilas. > Refrigera a minha alma; > guia-me pelas veredas da justiça por amor do seu nome. > Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, > não temerei mal algum, porque tu estás comigo; > a tua vara e o teu cajado me consolam. > Preparas uma mesa perante mim na presença dos meus inimigos; > unges a minha cabeça com óleo; o meu cálice transborda. > Certamente a bondade e a misericórdia me seguirão todos os dias da minha vida; > e habitarei na casa do Senhor para sempre."
Alguns pensam que Davi compôs este Salmo quando ele mesmo era pastor, apascentando o seu rebanho. Mas ele se parece mais com os pensamentos de um homem do que de um menino; e é mais provável que muito depois daqueles dias, quando Davi já era rei e se lembrava da sua mocidade e do seu rebanho nos campos, ele tenha visto como Deus o havia guiado, assim como ele guiara as suas ovelhas; e então escreveu este Salmo.
Mas, enquanto o Espírito de Deus vinha a Davi no meio das suas ovelhas, esse Espírito deixava o rei Saul, porque ele já não obedecia às palavras de Deus. Então Saul tornou-se muito infeliz e sombrio em seus sentimentos. Havia momentos em que parecia perder o juízo, e uma loucura caía sobre ele; e quase o tempo todo Saul andava triste e cheio de aflição, porque já não estava em paz com Deus.
Os servos que cercavam Saul notaram que, quando alguém tocava harpa e cantava, a melancolia e a aflição de Saul passavam, e ele ficava animado. Certa vez Saul disse:
"Achai alguém que saiba tocar bem, e trazei-o a mim. Deixai-me ouvir música, porque ela afasta a minha tristeza."
Um dos moços disse:
"Vi um jovem, filho de Jessé, de Belém, que sabe tocar muito bem. É de boa aparência e agradável no falar. Ouvi também que é um jovem valente, que sabe lutar tão bem quanto tocar; e o Senhor está com ele."
Então Saul enviou uma mensagem a Jessé, pai de Davi. Dizia:
"Manda-me teu filho Davi, que está com as ovelhas. Que ele venha tocar diante de mim."
Davi veio, pois, a Saul, trazendo consigo um presente de Jessé para o rei. Quando Saul o viu, amou-o, como acontecia com todos os que viam o jovem Davi. E Davi tocava harpa e cantava diante de Saul. E a música de Davi alegrava o coração de Saul e afastava os seus sentimentos tristes.
Saul gostou tanto de Davi que o fez seu escudeiro; e Davi carregava o escudo, a lança e a espada de Saul quando o rei estava à frente do seu exército. Mas Saul não sabia que Davi havia sido ungido por Samuel. Se o soubesse, teria tido muitos ciúmes de Davi.
Depois de algum tempo, Saul pareceu restabelecido, e Davi o deixou, para ser outra vez pastor em Belém.