Depois disso, Davi e seus homens esconderam-se em muitos lugares nas montanhas de Judá, muitas vezes caçados por Saul, mas sempre escapando dele. Certa vez, Jônatas, o filho de Saul, veio ao encontro de Davi numa floresta e lhe disse: "Não temas, porque o Senhor está contigo; e Saul, meu pai, não te fará prisioneiro. Tu ainda serás o rei de Israel, e eu estarei ao teu lado; e meu pai sabe disso."
E Jônatas e Davi renovaram a promessa de serem fiéis um ao outro, e aos filhos um do outro, para sempre. Depois se despediram; e Davi nunca mais tornou a ver seu querido amigo Jônatas.
Certa ocasião, Davi estava escondido com uns poucos homens numa grande caverna perto do Mar Morto, num lugar chamado En-Gedi. Estavam bem no fundo, na escuridão da caverna, quando viram Saul entrar sozinho e deitar-se para dormir. Os homens de Davi sussurraram-lhe: "Chegou a hora de que o Senhor falou: 'Entregarei o teu inimigo na tua mão, e farás com ele o que bem quiseres.'"
Então Davi aproximou-se de Saul em silêncio, com a espada na mão. Seus homens esperavam vê-lo matar Saul, mas, em vez disso, ele apenas cortou uma ponta do longo manto de Saul. Seus homens não gostaram; mas Davi lhes disse: "O Senhor me livre de fazer mal ao homem que o Senhor ungiu como rei."
E Davi não permitiu que seus homens fizessem mal a Saul. Passado algum tempo, Saul levantou-se do sono e saiu da caverna. Davi o seguiu a distância e gritou-lhe: "Meu senhor, o rei!"
Saul olhou para trás, e ali estava Davi, inclinando-se diante dele e erguendo o pedaço do manto real. Davi disse a Saul: "Meu senhor, ó rei, por que dás ouvidos às palavras de homens que te dizem que Davi procura fazer-te mal? Hoje mesmo o Senhor te entregou na minha mão, dentro da caverna, e alguns me disseram que te matasse, mas eu respondi: 'Não farei mal ao meu senhor, porque ele é o rei ungido do Senhor.' Vê, meu pai, vê a orla do teu manto. Eu a cortei para te mostrar que não te faria mal algum, embora andes me caçando para me matar. Que o Senhor julgue entre mim e ti, e que o Senhor me faça justiça contra ti; mas a minha mão não te tocará."
Quando Saul ouviu essas palavras, o antigo amor que tinha por Davi voltou-lhe ao coração, e ele exclamou: "É essa a tua voz, meu filho Davi?" E Saul chorou, e disse: "Tu és melhor do que eu, porque me tens feito o bem, enquanto eu te tenho feito o mal. Que o Senhor te recompense pela bondade que me mostraste neste dia! Eu sei que é a vontade de Deus que sejas rei, e que reinarás sobre este povo. Agora dá-me a tua palavra, em nome do Senhor, de que não destruirás a minha família, mas pouparás a vida dos meus."
E Davi fez essa promessa a Saul em nome do Senhor; e Saul deixou de caçar Davi e levou seus homens de volta ao palácio em Gibeá; mas Davi permaneceu no seu esconderijo, porque não podia confiar nas promessas de Saul de poupar-lhe a vida.
E não demorou muito para que Saul estivesse outra vez à procura de Davi no deserto de Judá, com Abner, tio de Saul e comandante do seu exército, e sob suas ordens três mil homens. Do seu esconderijo nas montanhas, Davi olhou para a planície e viu o acampamento de Saul quase a seus pés. Naquela noite, Davi e Abisai, um dos homens de Davi, desceram em silêncio e entraram no meio do acampamento de Saul, enquanto todos os guardas dormiam. O próprio Saul dormia, com a lança fincada no chão junto à cabeceira e uma botija de água amarrada a ela.
Abisai, o seguidor de Davi, sabia que Davi não mataria o rei Saul, e disse-lhe: "Deus entregou de novo o teu inimigo na tua mão. Deixa-me atravessá-lo com a lança e pregá-lo ao chão de um só golpe; um só; não precisarei feri-lo duas vezes."
Mas Davi disse: "Não o matarás. Quem pode ferir o ungido do Senhor sem se tornar culpado de um crime? Que o Senhor o fira, ou que ele morra quando Deus quiser, ou que caia em batalha; mas não morrerá pela minha mão. Tomemos a sua lança e a sua botija de água, e vamos embora."
Assim Davi tomou a lança de Saul e a sua botija de água, e então Davi e Abisai saíram do acampamento sem acordar ninguém. Pela manhã, Davi gritou para os homens de Saul e para Abner, o chefe do exército de Saul: "Abner, onde estás? Por que não respondes, Abner?"
E Abner respondeu: "Quem és tu, que gritas para o acampamento?"
Então Davi disse: "Não és tu um grande homem, Abner? Quem há como tu em todo o Israel? Por que não guardaste o teu rei? Mereces a morte pelo teu descuido! Vê, aqui estão a lança do rei e a sua botija de água!"
Saul reconheceu a voz de Davi e disse: "É essa a tua voz, meu filho Davi?"
E Davi respondeu: "É a minha voz, meu senhor, ó rei. Por que me persegues? Que mal fiz eu? Que Deus trate com os homens que te incitaram contra mim. Eu não valho todo o trabalho que tens em me caçar. O rei de Israel anda à procura de alguém tão pequeno como uma pulga ou um passarinho nas montanhas!"
Então Saul disse: "Agi mal; volta, meu filho Davi, e não tentarei mais fazer-te mal, porque hoje poupaste a minha vida!" Davi disse: "Que venha um dos moços buscar a lança do rei. Assim como hoje poupei a tua vida, que o Senhor poupe a minha."
E Davi seguiu o seu caminho, porque não se atrevia a confiar-se às mãos de Saul, e Saul levou seus homens de volta para a sua casa em Gibeá. Davi agora comandava um verdadeiro exército e era um chefe poderoso. Fez um acordo com o rei dos filisteus que vivia em Gate, o rei Aquis, e desceu à planície junto ao Grande Mar, para viver entre os filisteus. E Aquis deu-lhe uma cidade chamada Ziclague, ao sul da terra da tribo de Judá. Para lá Davi levou seus seguidores, e ali viveu durante o último ano do reinado de Saul.