Entre os judeus havia uma classe de homens odiada e desprezada pelo povo mais do que qualquer outra: a dos "publicanos". Eram os homens que cobravam do povo o imposto que os governantes romanos haviam lançado sobre a terra. Muitos desses publicanos eram egoístas, gananciosos e cruéis. Roubavam o povo, cobrando mais do que era justo. Alguns eram homens honestos, que agiam com retidão e não tomavam para o imposto mais do que o necessário; mas, como tantos eram maus, todos os publicanos eram odiados por igual, e o povo os chamava de "pecadores".
Um dia, quando Jesus saía de Cafarnaum em direção à beira do mar, seguido por uma grande multidão, passou por um publicano, ou cobrador de impostos, que estava sentado à sua mesa, recebendo o dinheiro das pessoas que vinham pagar os tributos. Esse homem se chamava Mateus, ou Levi, pois muitos judeus tinham dois nomes. Jesus podia ver dentro do coração dos homens, e viu que Mateus era alguém que poderia ajudá-lo como um de seus discípulos. Olhou para Mateus e disse: "Segue-me!"
No mesmo instante o publicano levantou-se da mesa e a deixou para ir com Jesus. Todo o povo se admirou ao ver um dos odiados publicanos entre os discípulos, junto com Pedro, João e os demais. Mas Jesus sabia que Mateus, muito tempo depois, faria uma obra que abençoaria o mundo para sempre. Foi esse mesmo Mateus, o publicano, quem, muitos anos mais tarde, escreveu "O Evangelho segundo Mateus", o livro que tanto nos conta sobre Jesus e que, mais do que qualquer outro, nos transmite as palavras que Jesus dirigiu ao povo. Jesus escolheu Mateus sabendo que ele escreveria esse livro. Pouco depois de ser chamado, Mateus ofereceu a Jesus um grande banquete em sua casa; e para o banquete convidou muitos publicanos e outros que os judeus chamavam de pecadores. Os fariseus viram Jesus sentado entre essas pessoas e disseram com desdém aos seus discípulos: "Por que o vosso Mestre se assenta à mesa com publicanos e pecadores?"
Jesus soube do que aqueles homens haviam dito, e respondeu: "Os que têm saúde não precisam de médico, mas sim os doentes. Eu vou a essas pessoas porque elas sabem que são pecadoras e precisam ser salvas. Não vim chamar os que se julgam bons, mas os que desejam tornar-se melhores."
Certa tarde, Jesus foi sozinho a um monte não longe de Cafarnaum. Uma multidão e seus discípulos o seguiram; mas Jesus deixou a todos e subiu ao alto do monte, onde pudesse ficar a sós. Ali permaneceu a noite inteira, orando a Deus, seu Pai e nosso Pai. Pela manhã, dentre todos os seus seguidores, escolheu doze homens que deveriam andar com ele e ouvir as suas palavras, para que, por sua vez, pudessem ensinar a outros. Alguns desses homens ele já havia chamado antes; mas agora os chamou de novo, e outros com eles. Foram chamados "os Doze", ou "os discípulos"; e, depois que Jesus subiu ao céu, foram chamados "os Apóstolos", palavra que significa "os enviados", porque Jesus os enviou a pregar o evangelho ao mundo.
Os nomes dos doze discípulos, ou apóstolos, eram estes: Simão Pedro e seu irmão André; Tiago e João, os dois filhos de Zebedeu; Filipe, de Betsaida, e Natanael, que também era chamado Bartolomeu, nome que significa "filho de Tolmai"; Tomé, que também era chamado Dídimo, nome que significa "gêmeo", e Mateus, o publicano ou cobrador de impostos; outro Tiago, filho de Alfeu, chamado "Tiago, o Menor", para distinguir seu nome do primeiro Tiago, o irmão de João, e Lebeu, que também era chamado Tadeu. Lebeu era chamado ainda Judas, mas era um homem diferente de outro Judas, cujo nome vem sempre por último. O décimo primeiro nome era outro Simão, chamado "o Cananeu", ou "Simão Zelote"; e o último nome era Judas Iscariotes, que mais tarde seria o traidor. Sabemos muito pouco sobre a maioria desses homens, mas alguns deles, em dias posteriores, realizaram uma grande obra. Simão Pedro era um líder entre eles; e João, muito depois daqueles tempos, quando já era bem velho, escreveu um dos livros mais maravilhosos de todo o mundo, "O Evangelho segundo João", o quarto entre os evangelhos.
À vista de todo o povo que viera ouvir Jesus, ele chamou esses doze homens para ficarem ao seu lado. Então, no monte, pregou a esses discípulos e à grande multidão. Jesus assentou-se, os discípulos ficaram de pé junto dele, e a grande multidão ficou à frente, enquanto Jesus falava. O que ele disse naquele dia é chamado "o Sermão do Monte". Mateus o escreveu, e vocês podem lê-lo em seu evangelho, nos capítulos quinto, sexto e sétimo. Jesus começou com estas palavras aos seus discípulos:
Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus.
Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados.
Bem-aventurados os mansos, porque herdarão a terra.
Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão fartos.
Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia.
Bem-aventurados os limpos de coração, porque verão a Deus.
Bem-aventurados os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus.
Bem-aventurados os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus.
Bem-aventurados sois vós quando os homens vos injuriarem e vos perseguirem e, mentindo, disserem todo mal contra vós por minha causa.
Alegrai-vos e exultai, porque é grande o vosso galardão nos céus; pois assim perseguiram os profetas que vieram antes de vós.
Vós sois o sal da terra; mas, se o sal perder o seu sabor, com que se há de salgar? Para nada mais presta, senão para ser lançado fora e pisado pelos homens.
Vós sois a luz do mundo. Não se pode esconder uma cidade edificada sobre um monte.
Nem se acende uma candeia para colocá-la debaixo do alqueire, mas no velador, e ela dá luz a todos os que estão na casa.
Assim brilhe a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem o vosso Pai, que está nos céus.
Eis mais algumas das palavras de Jesus neste sermão:
Eu vos digo: não andeis ansiosos pela vossa vida, quanto ao que haveis de comer ou beber; nem pelo vosso corpo, quanto ao que haveis de vestir. Não é a vida mais do que o alimento, e o corpo mais do que as vestes?
Olhai as aves do céu: não semeiam, não ceifam, nem ajuntam em celeiros; e, contudo, o vosso Pai celestial as alimenta. Não valeis vós muito mais do que elas?
Qual de vós, por mais que se preocupe, pode acrescentar um côvado à sua estatura?
E por que andais ansiosos quanto ao vestuário? Considerai os lírios do campo, como crescem: não trabalham, nem fiam;
E eu vos digo que nem Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como qualquer deles.
Ora, se Deus assim veste a erva do campo, que hoje existe e amanhã é lançada no forno, não vos vestirá muito mais a vós, homens de pouca fé?
Portanto, não andeis ansiosos, dizendo: Que comeremos? Ou: Que beberemos? Ou: Com que nos vestiremos?
(Pois os gentios é que procuram todas essas coisas;) porque o vosso Pai celestial sabe que necessitais de todas elas.
Mas buscai primeiro o reino de Deus e a sua justiça, e todas essas coisas vos serão acrescentadas.
Não vos inquieteis, pois, pelo dia de amanhã, porque o dia de amanhã cuidará de si mesmo. Basta a cada dia o seu mal.
Isto foi o que Jesus disse sobre a oração ao nosso Pai celestial:
Pedi, e dar-se-vos-á; buscai, e achareis; batei, e abrir-se-vos-á.
Pois todo o que pede recebe; e o que busca acha; e ao que bate se abrirá.
Ou qual dentre vós é o homem que, se o filho lhe pedir pão, lhe dará uma pedra?
Ou, se lhe pedir um peixe, lhe dará uma serpente?
Se vós, pois, sendo maus, sabeis dar boas dádivas aos vossos filhos, quanto mais o vosso Pai, que está nos céus, dará boas coisas aos que lhe pedirem!
Portanto, tudo o que quereis que os homens vos façam, fazei-o também vós a eles; porque esta é a Lei e os Profetas.
E este foi o fim do sermão:
Todo aquele, pois, que ouve estas minhas palavras e as pratica, eu o comparo ao homem prudente, que edificou a sua casa sobre a rocha:
E desceu a chuva, e vieram as enchentes, e sopraram os ventos, e deram contra aquela casa; e ela não caiu, porque estava edificada sobre a rocha.
E todo aquele que ouve estas minhas palavras e não as pratica será comparado ao homem insensato, que edificou a sua casa sobre a areia:
E desceu a chuva, e vieram as enchentes, e sopraram os ventos, e deram contra aquela casa; e ela caiu, e foi grande a sua queda.