Depois que morreu o sacerdote Matatias, levantou-se em seu lugar o seu filho Judas, chamado Macabeu; e todos os seus irmãos o ajudavam, e também todos os que haviam seguido o seu pai. Pensa-se que o nome Macabeu quer dizer "o Martelo", e Judas foi de fato como um martelo sobre os inimigos do seu povo. Ele vestiu a couraça como um gigante dos tempos antigos e cingiu as suas armas de guerra; era como um leão nos seus feitos, como um leãozinho que ruge sobre a presa. Perseguia os maus e destruía os que afligiam o seu povo, e a libertação prosperava em suas mãos.
Um general chamado Apolônio reuniu um grande exército para lutar contra Israel. Judas saiu-lhe ao encontro, derrotou-o e o matou; muitos inimigos caíram, e os demais fugiram. Judas tomou para si a espada de Apolônio, e com aquela espada combateu pelo resto da vida.
Então Seron, comandante do exército da Síria, soube disso e disse: "Vou fazer para mim um nome no reino; farei guerra a Judas e aos seus homens." E subiu com uma tropa poderosa. Quando os homens de Judas, que eram bem poucos, viram aquele grande exército que vinha, disseram: "Como poderemos nós, tão poucos, lutar contra multidão tão grande? Além disso, estamos fracos, pois não comemos nada hoje."
Mas Judas respondeu: "É coisa fácil uma multidão cair nas mãos de poucos. Para o Deus do céu tanto faz salvar por meio de muitos como por meio de poucos; porque a vitória na guerra não depende do tamanho do exército: é do céu que vem a força. Esses homens vêm contra nós cheios de soberba e de maldade, para destruir a nós, as nossas mulheres e os nossos filhos, e para nos despojar; nós, porém, lutamos pela nossa vida e pelas nossas leis. O próprio Deus os esmagará diante de nós; portanto, não tenhais medo deles."
Quando acabou de falar, lançou-se de repente sobre Seron e o seu exército, que foi desbaratado diante dele; e Judas os perseguiu pela descida do monte, e caíram cerca de oitocentos homens, e o resto fugiu. Então o medo de Judas começou a cair sobre todas as nações ao redor, e o seu nome chegou aos ouvidos do rei.
Quando o rei Antíoco soube dessas coisas, encheu-se de ira. Reuniu todas as forças do seu reino, um exército fortíssimo; mas, vendo que os seus tesouros iam ficando vazios, partiu para a distante terra da Pérsia, a fim de recolher dinheiro. Deixou um nobre chamado Lísias para governar metade do reino, e deu-lhe ordem de destruir a força de Israel, apagar de Jerusalém a memória daquele povo e estabelecer estrangeiros em toda a sua terra.
Lísias escolheu três generais, Ptolomeu, Nicanor e Górgias, homens poderosos entre os amigos do rei; e enviou com eles quarenta mil soldados de infantaria e sete mil cavaleiros para destruir a terra de Judá. Os mercadores da região, ouvindo a notícia, vieram ao acampamento com prata, ouro e correntes, esperando comprar os filhos de Israel como escravos. O grande exército acampou na planície, perto de uma cidade chamada Emaús.
Quando Judas e os seus irmãos viram que os males se multiplicavam e que o exército estava acampado junto às suas fronteiras, disseram: "Levantemos o nosso povo das ruínas, e lutemos pelo nosso povo e pelo santuário." A congregação reuniu-se então em Mispá, defronte de Jerusalém, porque em tempos antigos Mispá tinha sido um lugar de oração para Israel. Jejuaram naquele dia, vestiram-se de pano de saco, puseram cinza sobre a cabeça e rasgaram as suas roupas; e abriram o livro da lei. Trouxeram as vestes dos sacerdotes, as primícias e os dízimos, que já não podiam ser oferecidos no Templo; e clamaram em alta voz ao céu, dizendo: "Que faremos com estas coisas, e para onde as levaremos? O teu santuário está pisado e profanado, e os teus sacerdotes estão de luto e humilhados. E eis que as nações se reuniram contra nós para nos destruir. Como poderemos resistir diante delas, se tu não nos ajudares?"
Depois tocaram as trombetas e clamaram com grande voz. E Judas nomeou capitães sobre o povo: chefes de mil, de cem, de cinquenta e de dez homens. Aos que estavam construindo casa, ou tinham ficado noivos, ou estavam plantando vinha, ou sentiam medo, disse que cada um voltasse para a sua casa, como a lei de Moisés permitia. Então o exército partiu e acampou ao sul de Emaús. E Judas disse: "Armai-vos e sede valentes; porque é melhor morrermos na batalha do que ver a ruína do nosso povo e do santuário. Mas, como for a vontade de Deus no céu, assim se faça."
De noite, Górgias tomou cinco mil soldados de infantaria e mil cavaleiros escolhidos, e saiu às escondidas para cair sobre o acampamento dos judeus e feri-los de surpresa; e homens da cidadela lhe serviam de guias. Judas, porém, soube disso, e ele mesmo saiu de noite com os seus homens, para atacar o exército do rei que ficara em Emaús, enquanto as forças inimigas estavam divididas. Quando Górgias chegou ao acampamento de Judas, não encontrou ninguém; e pôs-se a procurá-los nos montes, dizendo: "Esses homens estão fugindo de nós."
Ao romper do dia, Judas apareceu na planície com três mil homens; mas não tinham nem as armaduras nem as espadas que desejariam ter. Viram o acampamento das nações, forte e bem defendido, cercado de cavaleiros ao redor, homens treinados para a guerra. E Judas disse aos seus: "Não temais o número deles, nem vos assusteis com o seu ataque. Lembrai-vos de como os nossos pais foram salvos no mar Vermelho, quando Faraó os perseguia com um exército. Clamemos ao céu, para que Deus se compadeça de nós, se lembre da aliança feita com os nossos pais e destrua hoje este exército diante de nós; e então todas as nações saberão que existe alguém que resgata e salva a Israel."
Soaram as trombetas e travou-se a batalha; e as nações foram esmagadas e fugiram pela planície. Caíram cerca de três mil homens. Então os homens de Judas voltaram-se para os despojos, as riquezas deixadas no acampamento; mas Judas disse: "Não vos deixeis levar pela cobiça dos despojos, porque ainda temos uma batalha diante de nós. Górgias e o seu exército estão perto de nós, no monte. Ficai firmes agora contra os nossos inimigos e combatei-os; depois podereis recolher os despojos com segurança." Ainda ele falava, quando apareceu um destacamento dos homens de Górgias, espiando do alto do monte. Viram que o seu próprio acampamento estava em chamas, pois a fumaça que subia mostrava o que havia acontecido; e, quando viram na planície o exército de Judas, pronto para a batalha, encheram-se de pavor e fugiram todos para a terra dos estrangeiros.
Então Judas voltou para saquear o acampamento, e os seus homens recolheram muito ouro e prata, tecidos azuis e púrpura do mar, e grandes riquezas. E, ao voltarem para casa, cantavam um cântico de ação de graças e louvavam a Deus, que está no céu, dizendo: "Porque ele é bom, porque a sua misericórdia dura para sempre." Assim Israel teve naquele dia uma grande libertação.
No ano seguinte, o próprio Lísias reuniu sessenta mil soldados escolhidos de infantaria e cinco mil cavaleiros, para conquistar Judá. Judas foi ao seu encontro com dez mil homens; e, vendo aquele exército poderoso, orou, dizendo: "Bendito és tu, ó Salvador de Israel, que quebraste o ímpeto do guerreiro poderoso pela mão do teu servo Davi, e entregaste o acampamento dos filisteus nas mãos de Jônatas, filho de Saul, e do jovem que lhe levava as armas. Encerra este exército nas mãos do teu povo Israel. Derruba-os pela espada dos que te amam, e que todos os que conhecem o teu nome te louvem com cânticos."
Os exércitos se enfrentaram, e caíram cerca de cinco mil homens de Lísias. Quando Lísias viu o seu exército em fuga, e viu a coragem dos soldados de Judas, prontos a viver ou a morrer com nobreza, voltou para Antioquia, a fim de reunir mais soldados e voltar outro dia.
Então disseram Judas e os seus irmãos: "Eis que os nossos inimigos estão esmagados; subamos para purificar o santuário e dedicá-lo de novo." Todo o exército se reuniu, e subiram ao monte Sião. Ali viram o santuário desolado, o altar profanado e as portas queimadas; nos átrios cresciam arbustos, como num bosque ou sobre um monte, e as salas dos sacerdotes estavam derrubadas. Rasgaram as suas vestes e fizeram grande pranto, puseram cinza sobre a cabeça e caíram com o rosto em terra; e tocaram as trombetas e clamaram ao céu.
Judas designou então homens para combater os soldados da cidadela, até que ele purificasse o santuário. Escolheu sacerdotes sem defeito, homens que amavam a lei; e eles purificaram o santuário e levaram as pedras profanadas para um lugar impuro. Deliberaram sobre o que fazer com o grande altar dos holocaustos, que os pagãos haviam profanado; e acharam melhor derrubá-lo, para que nunca viesse a ser para eles motivo de vergonha. Derrubaram-no, pois, e guardaram as suas pedras num lugar apropriado, no monte do Templo, até que viesse um profeta que soubesse dizer o que se devia fazer com elas. Depois tomaram pedras inteiras, não tocadas por ferramenta de ferro, como manda a lei, e construíram um altar novo, segundo o modelo do primeiro.
Repararam o santuário e santificaram de novo o interior do Templo, e abençoaram os átrios. Fizeram novos utensílios sagrados e levaram para dentro do Templo o candelabro, o altar do incenso e a mesa. Queimaram incenso sobre o altar e acenderam as lâmpadas do candelabro, e elas iluminaram o Templo. Puseram os pães sobre a mesa, penduraram as cortinas e terminaram toda a obra que haviam começado.
Então, de manhã cedo, no dia vinte e cinco do nono mês, o mês chamado Quisleu, levantaram-se e ofereceram sacrifício, segundo a lei, sobre o novo altar dos holocaustos que haviam construído. Na mesma época, e no mesmo dia em que as nações o haviam profanado, nesse mesmo dia ele foi dedicado de novo, com cânticos, harpas, cítaras e címbalos. Todo o povo se prostrou com o rosto em terra, adorando e louvando ao céu aquele que lhes havia dado bom êxito.
Celebraram a dedicação do altar durante oito dias, e ofereceram holocaustos com alegria. Enfeitaram a fachada do Templo com coroas de ouro e pequenos escudos, e consertaram as portas e as salas dos sacerdotes, e lhes puseram portas. Houve enorme alegria entre o povo, porque a vergonha lançada pelas nações fora removida.
E Judas, com os seus irmãos e toda a congregação de Israel, determinou que os dias da dedicação do altar fossem celebrados no seu tempo, de ano em ano, durante oito dias, a partir do dia vinte e cinco do mês de Quisleu, com júbilo e alegria. Essa festa é guardada pelo povo judeu até hoje; chama-se festa da Dedicação, ou Hanucá, a festa das luzes.
Depois disso, construíram muros altos e torres fortes ao redor do monte Sião, e puseram ali uma guarnição para guardá-lo, a fim de que o lugar santo nunca mais fosse pisado como antes.